Santa Missa no Primeiro Batalhão de Fronteira, Foz do Iguaçu, 1950.
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 20 de maio de 2013
A primeira oração Mariana
Fragmento Papiráceo
Em síntese: Em
1917 a Biblioteca John Ryland, de Manchester, adquiriu no Egito um
pequeno papiro, cujo conteúdo foi identificado em 1939; é o texto de uma
oração dirigida a Maria Santíssima invocada como Theotókos (Mãe de
Deus) no século III. Quando em 431 o Concilio de Éfeso proclamou Maria
Theotókos, fez eco a uma tradição cujo primeiro termo conhecido remonta a
Orígenes (243).
Em 1917 a
Biblioteca John Ryland, de Manchester (Inglaterra), adquiriu no Egito um
pequeno fragmento de papiro de 18 x 9,4 cm, que foi catalogado como Ryl. III, 470. Esse papiro apresenta uma oração mariana de grande importância tanto por seus dizeres como por sua data.
Examinaremos, a seguir, o conteúdo do papiro e a respectiva datação.
1. O conteúdo do papiro
O texto do
fragmento papiráceo foi editado em 1938, sem que se tivessem até então
identificado os seus dizeres. Isto só foi feito no ano seguinte por F.
Mercenier: este pesquisador verificou que se tratava da oração mariana
conhecida e recitada ainda hoje com as palavras iniciais "Sob a vossa
proteção" (Sub tuum praesidium... em latim). Embora o texto não
esteja completo, mas deteriorado pelas intempéries dos séculos (coisa
normal entre os papiros), o sentido das palavras pode ser depreendido
com clareza e segurança. Eis, a seguir, uma reprodução do papiro e a
reconstrução do seu conteúdo. Entre colchetes estão coloca- das as
letras gregas subentendidas para dar significado ao texto:
O texto, devidamente reconstituído, diz o seguinte:
Sob a tua misericórdia nos refugiamos. Mãe de Deus!
Não deixes de considerar as nossas súplicas em nossas dificuldades, Mas livra-nos do perigo, Única casta e bendita!
A oração,
redigida na primeira pessoa do plural, parece ser, por isto mesmo,
pertinente ao uso da Liturgia. Comentemo-la, levando em conta as
traduções da mesma existentes nas diversas tradições litúrgicas.
Sob a tua
misericórdia nos refugiamos... Uma das diferenças mais notáveis quando
consideramos as versões recentes, está em que o antigo orante se
refugiava debaixo da misericórdia de Maria, ao passo que o texto latino
diz praesidium, proteção, asilo, defesa - o que parece ser mais sóbrio. A
expressão "sob a tua misericórdia" se encontra nas versões bizantina,
copta e ambrosiana, ao passo que a Liturgia síria reza mais
enfaticamente ainda: "sob o manto da tua misericórdia". Por sua vez, o
rito etíope diz: "sob a sombra de tuas asas".
Alguns manuscritos latinos do século X traduzem literalmente: sub tuis visceribus,
isto é, em tuas entranhas nos refugiamos. Esta versão faz ressoar um
semitismo bíblico: a misericórdia é comparada às entranhas de uma mãe,
que em seu íntimo defende e abriga seu filho. Na verdade, o vocábulo
grego eusplanchían significa boas entranhas. Como se vê, o texto
original põe em relevo a confiança filial e a índole afetiva das
relações entre o cristão orante e a Santa Mãe de Deus.
Theotókos. O título que comumente se traduz por "Mãe de Deus", quer dizer, ao pé da letra: "Aquela que deu à luz Deus", em latim Deipara.
Este título professa que a pessoa que Maria deu à luz, é a pessoa do
Filho de Deus ou a segunda Pessoa da SSma. Trindade na medida em que
quis assumir a carne humana. Note-se que o vocábulo Theotóke é
forma de vocativo; donde se depreende que a oração é dirigida a Maria,
como expressão da grande antiguidade da devoção mariana no povo de Deus.
Não deixes de considerar as nossas súplicas em nossas dificuldades. Ao pé da letra, o fiel pede a Maria: "não afastes de nossas súplicas o teu olhar".
Basta, pois, que a Mãe de Deus esteja atenta às nossas súplicas para
que estejamos seguros. Não se trata, porém, de qualquer súplica, mas
daquelas que brotam das dificuldades.
Mas livra-nos do perigo. Observe-se que o texto atual desta prece menciona "os perigos", ao passo que o papiro fala "do perigo".
Quem recua até o ambiente egípcio do século III, verifica que o perigo
por antonomásia eram as perseguições movidas pelo Império Romano contra
os cristãos. O historiador Eusébio de Cesaréia (+339), em sua História
da Igreja, descreve a grande crueldade das perseguições havidas no
Egito. Por conseguinte, pode-se crer que a comunidade que compôs tal
oração, em tempo de perseguição, recorria à proteção da misericórdia da
Mãe de Deus. Se tal suposição é correta, vê-se que a oração refletia
dramaticamente a alma do povo de Deus.
Única casta e bendita! A exclamação final professa a virgindade de Maria Santíssima. O termo agne significa pura, casta, santa; além da virgindade, proclama a fidelidade de Maria à vontade de Deus.
2. O problema da datação
Os estudiosos concordam entre si ao afirmar a grande antiguidade do texto, mas oscilam entre o século III e o século IV.
Os que preferem
o século III valem-se de argumentos papirológicos (material sobre o
qual se fez a escrita, tipo de letra, caligrafia...). Os partidários do
século IV baseiam-se em razões de ordem doutrinária: o uso da expressão Theotókos, dizem,
não se encontra antes do século IV. Todavia a pesquisa atenta das
fontes literárias ou patrísticas leva a concluir claramente em favor do
século III. Eis o que se pode apurar:
Por volta de 428 Nestório, Patriarca de Constantinopla, rejeitou o costume, arraigado no povo cristão, de chamar Maria Theotókos; preferia falar de Christotókos (a
que deu à luz o Cristo). Com isto Nestório queria pretensamente
salvaguardar a humanidade completa de Cristo, mas na verdade estava
separando o divino e o humano em Jesus e negando a verdadeira
Encarnação. A réplica a Nestório não se fez esperar. São Cirilo, Bispo
de Alexandria, sede tradicionalmente oposta a Constantinopla em questões
cristológicas, assumiu a defesa do título Theotókos. O Concilio geral de Éfeso em 431, valendo-se das palavras de Cirilo, declarou que os Santos Padres "não duvidaram chamar Theotókos à
SSma. Virgem" - o que não queria dizer que a Divindade começou a
existir a partir de Maria, mas que Aquele que nasceu de Maria, desde o
seio materno está unido hipostaticamente ao Verbo de Deus.
A controvérsia assim oriunda tem suas raízes em épocas anteriores. Com efeito; quando Nestório se pôs a negar o título Theotókos, encontrou-o
já inveterado no povo de Deus, principalmente no Egito ou na região de
Alexandria. Retrocedendo ao século IV encontramos o grande Bispo
Atanásio de Alexandria, que por volta de 340 atribuiu algumas vezes o
título Theotókos a Maria SSma., tanto nos seus escritos contra os arianos quanto na sua Vida de Antão.
O antecessor de
Atanásio na sede alexandrina, S. Alexandre, também usou tal título:
numa de suas cartas afirma que o Verbo assumiu um corpo verdadeiro, e
não aparente, de Maria, aTheotókos (PG 18, 568c).
Em 300 foi eleito Bispo de Alexandria Pedro I: ao referir-se ao mistério da Encarnação, chama duas vezes Maria Theotókos (PG
18,517b). Nem Pedro nem Alexandre nem Atanásio sentem a necessidade de
justificar ou explicar o título - o que mostra que era tranquilamente
aceito pelo povo de Deus.
Entrando agora no século III, notemos que o mártir alexandrino Piero (+300) cognominado Orígenes Júnior, escreveu um tratado sobre a Theotókos (Peri tes Theotókou), como refere Filipe de Side.
Recuando mais ainda, registra-se uma observação do historiador Sócrates, o Escolástico, na sua História da Igreja: afirma
que Orígenes de Alexandria (+254) no início do seu comentário sobre a
epístola aos Romanos (redigido por volta de 243), elaborou ampla
explicação do sentido que tem o termo Theotókos; em tal caso
pode-se crer que Orígenes sentia a necessidade de explicar o título
mariano. Infelizmente, porém, esse comentário da epístola aos Romanos se
perdeu. O vocábulo Theotókos ocorre ainda em alguns textos de Orígenes cuja
autenticidade é discutida (o fragmento 80 sobre Lucas é tido geralmente
como genuíno). Há certamente algumas afirmações de Orígenes, em suas
homílias sobre São Lucas, que sugerem tenha Orígenes, já na primeira
metade do século III, chamado Maria SSma. Theotókos.
Este título ocorre outrossim na obra As Bênçãos dos Patriarcas, de
Hipólito de Roma (+235), que pode datar de fins do século II (julga-se,
porém, que a referência ao título é devida a uma interpolação e não
pertence à integridade do texto).
Como quer que seja, pode-se reconstituir a série de autores alexandrinos que aplicam a Maria a designação Theotókos: Orígenes, Piero, Pedro I, Alexandre e Atanásio; tal série vai de 243 a 340, evidenciando a antiguidade do texto.
Estes dados de
literatura patrística são assaz significativos para que se possa
atribuir a oração em pauta ao século III. Ela é testemunho de que a
piedade mariana desde remotas épocas existe no povo de Deus, pondo em
relevo a figura maternal de Maria: Mãe de Deus feito homem e Mãe dos
homens que seguem a Cristo perseguido e vencedor da morte.
Fonte: Almas Devotas
domingo, 20 de janeiro de 2013
Conhecendo a Idade Média
Gilbert Keith Chesterton
Illustrated London News, 15 de novembro de 1913
Illustrated London News, 15 de novembro de 1913
É bastante natural que os homens prósperos de nosso tempo desconheçam mesmo história. Se a conhecessem, conheceriam a muito pouco edificante história de como se tornaram prósperos. É bastante natural, digo, que eles não saibam história: Mas por que eles pensam que sabem? Eis aqui uma opinião tirada a esmo de um livro escrito por um dos mais cultos dentre nossos jovens críticos, uma opinião muito bem escrita e de todo confiável em seu próprio tema, que é um tema moderno. Diz o escritor: “Existiu pouco avanço social ou político na Idade Média até à Reforma e à Renascença”. Ora, eu poderia tão propriamente quanto ele dizer que houve pouco avanço nas ciências e invenções no século dezenove até à vinda de William Morris: E então me desculpar, dizendo que não estou pessoalmente interessado em máquinas de fiar ou águas-vivas – o que certamente é o caso. Pois isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer: Ele quis dizer que não está pessoalmente interessado em Arautos ou Abades com mitras. Tudo isto está bem; mas por que, ao escrever sobre algo que não teria existido na Idade Média, deveria ele dogmatizar sobre uma história que ele evidentemente não conhece? No entanto, esta pode tornar-se uma história muito interessante.
Pouco antes da Conquista Normanda, países como o nosso eram o pó de um ainda débil feudalismo, continuamente jogado nas voragens por bárbaros – bárbaros que jamais montaram um cavalo. Dificilmente existia uma casa de tijolos ou pedras na Inglaterra. Raramente se encontravam estradas, exceto sendas batidas; praticamente não existia nenhuma lei, exceto os costumes locais. Esta era a Idade das Trevas da qual surgiu a Idade Média. Tome a Idade Média duzentos anos depois da Conquista Normanda, e quase outro tanto antes do início da Reforma. As grandes cidades surgiram; os burgueses são privilegiados e importantes; o trabalho foi organizado em livres e responsáveis uniões de trabalho; os Parlamentos são poderosos e disputam com os príncipes; a escravidão quase inteiramente desapareceu; as grandes Universidades estão abertas e ensinam com o programa de educação que Huxley tanto admirou; Repúblicas tão orgulhosas e cívicas como as dos pagãos, erguem-se como estátuas de mármore ao longo do Mediterrâneo; e por todo o Norte homens construíram Igrejas tais que os homens talvez nunca mais igualem. E isso, cuja porção essencial foi feita em apenas um século, é o que o crítico chama “pouco avanço social ou político”. Dificilmente há alguma importante instituição sob a qual ele vive, da Universidade que o treinou ao Parlamento que o governa, que não fez os seus principais avanços naquele tempo.
Se alguém pensa que escrevo isto por pedantice, espero mostrar-lhe em um momento que tenho um objetivo mais humilde e prático. Eu quero considerar a natureza da ignorância, e começo dizendo que, em todo o sentido erudito e acadêmico, eu próprio sou muito ignorante. Assim como dizemos de um homem como Lord Brougham que seu conhecimento geral é grande, eu diria que minha ignorância geral é grande. Mas este é exatamente o ponto. É um conhecimento geral, e uma ignorância geral. Eu sei pouco de história: mas eu conheço um pouco de quase toda a história. Eu não sei muito sobre Martinho Lutero e sua Reforma, por exemplo, mas sei que ela fez uma tremenda diferença. Ora, não saber que o rápido progresso dos séculos doze e treze fez uma grande diferença é tão extraordinário como nunca ter ouvido falar de Martinho Lutero. Eu não sou muito bem informado sobre Budistas; mas sei que Budistas se interessam por filosofia. Acredite, não saber que os Budistas se interessam por filosofia não é mais impressionante que não saber que os medievais se interessavam por progresso político ou experimentos. Não sei muito sobre Frederico, o Grande. Assustava-me em minha infância a coleção de volumes de Carlyle sobre o assunto: Parecia existir lá um monte de coisas para conhecer. Mas, apesar dos meus receios, eu seria capaz de adivinhar com alguma probabilidade o tipo de substância que tais volumes conteriam. Eu arriscaria (e não incorretamente, acredito) que os volumes conteriam a palavra “Prússia” em um ou mais lugares; que se falaria sobre guerra de tempos em tempos; que alguma menção poderia ser feita a tratados e fronteiras; que a palavra “Silésia” poderia ser encontrada numa procura diligente, assim como os nomes de Maria Teresa e Voltaire; que em algum lugar em todos aqueles volumes, seu grande autor iria dizer se Frederico o Grande tinha um pai, se chegou a casar-se, se possuía grandes amigos, se tinha algum hobby ou qualquer tipo de gosto literário, se morreu no campo de batalha ou em sua cama, e assim por diante. Se eu tivesse reunido coragem para abrir um destes volumes, provavelmente teria encontrado algo ao menos nestas linhas gerais.
Agora troque a imagem; e conceba um jovem comum, jornalista bem educado ou homem de letras de uma escola pública ou faculdade quando pára em frente de uma coleção ainda maior de livros ainda maiores das bibliotecas da Idade Média – digamos, todos os volumes de São Tomás de Aquino. Eu digo que, de nove chances em dez, aquele jovem bem-educado não sabe o que irá encontrar naqueles volumes em capa de couro. Ele pensa que iria encontrar discussões sobre a capacidade dos anjos de se equilibrarem em agulhas; e assim ele iria. Mas eu digo que ele não sabe que iria encontrar um Escolástico discutindo quase todas as coisas que Herbert Spencer discutiu: política, sociologia, formas de governo, monarquia, liberdade, anarquia, propriedade, comunismo, e todas as várias noções que estão em nosso tempo brigando pelo tempo do “Socialismo”. Ou, por outra, eu não sei muito sobre Maomé ou Maometismo. Eu não levo o Alcorão para a cama comigo todas as noites. Mas, se eu o fizesse em alguma noite em especial, em pelo menos um sentido posso alegar saber o que não deve se encontrar lá. Eu entendo que não devo encontrar uma obra repleta de fortes encorajamentos ao culto de ídolos; que os louvores do politeísmo não serão sonoramente cantados; que o caráter de Maomé não será submetido a nada similar a ódio e derrisão; e que a grande doutrina moderna da irrelevância da religião não será desnecessariamente enfatizada. Mas troque novamente a imagem; e imagine o homem modero (o infeliz homem moderno) que levou um volume de teologia medieval para a cama. Ele esperaria encontrar um pessimismo que não está ali, um fatalismo que não está ali, um amor ao barbaresco que não está ali, um desprezo da razão que não está ali. Deixemo-lo tentar. Faria a ele uma de duas boas coisas: ou o faria dormir – ou o faria acordar.
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