Assoc. Fronteira Católica

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Dom Bosco e os protestantes

No mês de Março do ano de 1853 principiamos a publicação periódica das Leituras Católicas.
Desde 1847, quando teve lugar a emancipação dos judeus e dos protestantes, se tornava indispensável esse antídoto para benefício dos fiéis cristãos em geral, e especialmente da juventude.
Com aquela emancipação, o Governo entendia somente dar liberdade a todos os credos, mas não com detrimento do Catolicismo.
Mas os protestantes não o entenderam assim, e começaram a fazer propaganda anticatólica com todos os recursos de que dispunham.
Procuravam obter prosélitos por meio de três diários (A Boa Nova, A Luz Evangélica, Il Rogantino Piemontese), de muitos livros bíblicos e não bíblicos; e oferecendo dinheiro, empregos, roupas e alimentos a quem ia às suas escolas ou freqüentava suas conferências ou seu templo.
O Governo sabia disso tudo e não se importava, e com seu silêncio os favorecia eficazmente. Acrescente-se que os protestantes estava preparados e dotados de todos os meios materiais e propagandísticos, enquanto que os católicos, confiados nas leis civis, que até então os tinham protegido e defendido, se possuíam algum diário ou alguma obra clássica de erudição, não dispunham de um único jornal ou livro adequado para ser posto ao alcance do povo.
Naquelas circunstâncias, para atender à necessidade, comecei a compor alguns quadros sinópticos sobre a Igreja Católica; e depois algumas oitavas intituladas Lembranças para os Católicos, que se espalhavam entre os jovens e adultos, especialmente durante os exercícios espirituais e as missões.
Tais livretos foram acolhidos com grande avidez, e em pouco tempo se distribuíram muitos milhares deles. Isso me persuadiu da necessidade de um meio popular para facilitar o conhecimento dos princípios fundamentais do catecismo.
Em conseqüência, mandei reimprimir um folheto intitulado Avisos aos Católicos, que tinha a finalidade de alertar os católicos para não se deixarem colher na rede dos hereges.
A venda foi extraordinária; em dois anos se difundiram mais de 200.000 exemplares, o que agradou os bons, mas enfureceu os protestantes, que se julgavam os únicos donos da seara evangélica.
Pareceu-me então que era urgente preparar e publicar livros para o povo, e projetei as assim chamadas Leituras Católicas.
Preparados alguns opúsculos, quis publicá-los logo, mas surgiu uma dificuldade não prevista: nenhum bispo queria se pôr à testa da publicação.
Varcelli, Biella e Casale se recusaram, dizendo que era perigoso lançar-se em luta contra os protestantes. O Arcebispo Mons. Fransoni, na ocasião residente em Lyon, aprovava e recomendava, mas ninguém queria assumir nem sequer a censura eclesiástica.
O Cônego Zappata, vigário geral, foi o único que a pedido do Arcebispo reviu meio opúsculo, mas depois devolveu o manuscrito dizendo: "Aí vai o seu trabalho; não quero me responsabilizar; os casos de Ximenes e de Palma são muito recentes. O sr. desafia e ataca o inimigo de frente, mas eu prefiro me bater em retirada enquanto há tempo.
De acordo com o vigário geral, expus tudo ao Arcebispo, que me respondeu com uma carta que devia ser apresentada a Mons. Moreno, bispo de Ivrea. Nela rogava àquele prelado que aceitasse sob sua proteção a publicação do projeto, assistindo-a com a sua censura e autoridade.
Mons. Moreno se prestou de bom grado; encarregou o advogado Pinoli, seu vigário geral, de fazer o exame do texto, calando, sem embargo, o nome do censor. Em seguida se redigiu um programa, e a 1º de março de 1853 saiu o primeiro fascículo intitulado O Católico Instruído.
As Leituras Católicas foram acolhidas com aplauso geral, sendo extraordinária o número de leitores; mas logo começaram as iras dos protestantes.
Tentaram combatê-las com seus periódicos e com suas "Leituras Evangélicas", mas não encontraram leitores. Então dirigiram todo o tipo de ataques contra o pobre Dom Bosco.
Ora uns, ora outros, vinham discutir comigo, convencidos, como diziam, de que ninguém podia resistir a seus argumentos, já que os padres católicos eram muito ignorantes e seriam rapidamente confundidos.
Assim, pois, eles vinham me atacar; algumas vezes era um só, outras vezes eram dois, ou até vários juntos. Sempre os rebati, e quando não sabia responder às objeções que eu lhes fazia, recomendava que fossem consultar seus ministros e depois me fizessem o favor de trazer a resposta...
Vieram discutir comigo Amadeu Bert, depois Meille, o evangélico Pugno, e outros e mais outros; mas não puderam conseguir que eu parasse de pregar ou de imprimir as nossas Leituras - o que aumentou ainda mais sua raiva...
Um domingo à tarde, no mês de Janeiro de 1854, anunciaram-me a visita de dois senhores que desejavam falar comigo. Entraram, e depois de uma larga série de salamaleques e rapapés, um deles começou a me dizer:
- O Sr. é um teólogo que recebeu da natureza um grande dom, o de se fazer entender e ler pelo povo; por isso lhe pedimos que empregue esse precioso dom em coisas úteis à humanidade, como favorecer a ciência, as artes, o comércio...
- É precisamente isso que procuro fazer nas Leituras Católicas, às quais me dedico por inteiro.
- Seria preferível que se ocupasse de outros bons livros para a juventude, como por exemplo uma história da antigüidade, um tratado de geografia, de física ou de geometria... mas não das Leituras Católicas.
- E por que não delas?
- Porque é um trabalho que muitos já fizeram e refizeram.
- Esse trabalho, é verdade que muitos o fizeram, mas em livros eruditos, não para o povo, como é precisamente o meu objetivo com as Leituras Católicas.
- Mas esse trabalho não lhe dá nenhum fruto; pelo contrário, se o Sr. fizer o que nós lhe recomendamos, conseguirá também ajuda material para a prodigiosa instituição que a Providência lhe confiou. Tome, aqui tem algo (e foram me estendendo quatro notas de mil francos); este é apenas um primeiro donativo, receberá outros ainda maiores.
- Por que me oferecem tanto dinheiro? 
- Para animá-lo a empreender as obras sugeridas e para ajudar sua instituição, digna de todos os louvores.
- Perdoem, senhores, mas podem ficar com seu dinheiro. Por ora não posso dedicar-me a outros trabalhos científicos, mas só às Leituras Católicas.
- Mas é um trabalho inútil...
- Se é um trabalho inútil, por que se preocupam com ele? Por que me oferecem dinheiro para me fazer desistir dele?
- O Sr. não está pensando bem no que faz, pois se rejeita isto, prejudica sua própria obra, expõe-se a certas conseqüências, a certos perigos...
- Senhores, entendo muito bem o que me querem dizer; mas lhes advirto com toda a clareza que diante da verdade não tenho medo de ninguém; quando me ordenei sacerdote, consagrei-me ao bem da Igreja e da pobre humanidade; entendo que devo continuar promovendo com minhas débeis forças as Leituras Católicas.
- O Sr. faz muito mal, replicaram com a voz e o rosto alterados, enquanto se iam levantando, o Sr. nos está insultando; ademais, quem sabe o que será do Sr. aqui mesmo?
E, em tom de ameaça, acrescentaram:
- Se sair de casa, está seguro de que voltará?
- O srs. não conhecem os sacerdotes católicos. Enquanto vivem, trabalham para cumprir o seu dever; e se em meio ao trabalho tiverem que morrer, será para eles a maior felicidades, a glória suprema.
Naquele momento estavam os dois tão irritados que eu receei me agredissem. Levantei-me, e colocando uma cadeira entre nós disse:
- Não temo suas ameaças. Se eu quisesse usar a força, pouco me custaria; mas a força do sacerdote está na paciência e no perdão. Portanto, saiam já daqui!
Girando em torno da cadeira, abri a porta do quarto e disse:
- Buzzetti, acompanha esses senhores até a porta, porque não conhecem bem a escada.
Ficaram confusos diante daquela intimação, e saíram com o rosto e os olhos inflamados de raiva dizendo: "Nos veremos em hora mais oportuna". 

domingo, 20 de janeiro de 2013

Conhecendo a Idade Média


Gilbert Keith Chesterton 
Illustrated London News, 15 de novembro de 1913
  

É bastante natural que os homens prósperos de nosso tempo desconheçam mesmo história. Se a conhecessem, conheceriam a muito pouco edificante história de como se tornaram prósperos. É bastante natural, digo, que eles não saibam história: Mas por que eles pensam que sabem? Eis aqui uma opinião tirada a esmo de um livro escrito por um dos mais cultos dentre nossos jovens críticos, uma opinião muito bem escrita e de todo confiável em seu próprio tema, que é um tema moderno. Diz o escritor: “Existiu pouco avanço social ou político na Idade Média até à Reforma e à Renascença”. Ora, eu poderia tão propriamente quanto ele dizer que houve pouco avanço nas ciências e invenções no século dezenove até à vinda de William Morris: E então me desculpar, dizendo que não estou pessoalmente interessado em máquinas de fiar ou águas-vivas – o que certamente é o caso. Pois isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer: Ele quis dizer que não está pessoalmente interessado em Arautos ou Abades com mitras. Tudo isto está bem; mas por que, ao escrever sobre algo que não teria existido na Idade Média, deveria ele dogmatizar sobre uma história que ele evidentemente não conhece? No entanto, esta pode tornar-se uma história muito interessante.

Pouco antes da Conquista Normanda, países como o nosso eram o pó de um ainda débil feudalismo, continuamente jogado nas voragens por bárbaros – bárbaros que jamais montaram um cavalo. Dificilmente existia uma casa de tijolos ou pedras na Inglaterra. Raramente se encontravam estradas, exceto sendas batidas; praticamente não existia nenhuma lei, exceto os costumes locais. Esta era a Idade das Trevas da qual surgiu a Idade Média. Tome a Idade Média duzentos anos depois da Conquista Normanda, e quase outro tanto antes do início da Reforma. As grandes cidades surgiram; os burgueses são privilegiados e importantes; o trabalho foi organizado em livres e responsáveis uniões de trabalho; os Parlamentos são poderosos e disputam com os príncipes; a escravidão quase inteiramente desapareceu; as grandes Universidades estão abertas e ensinam com o programa de educação que Huxley tanto admirou; Repúblicas tão orgulhosas e cívicas como as dos pagãos, erguem-se como estátuas de mármore ao longo do Mediterrâneo; e por todo o Norte homens construíram Igrejas tais que os homens talvez nunca mais igualem. E isso, cuja porção essencial foi feita em apenas um século, é o que o crítico chama “pouco avanço social ou político”. Dificilmente há alguma importante instituição sob a qual ele vive, da Universidade que o treinou ao Parlamento que o governa, que não fez os seus principais avanços naquele tempo.

Se alguém pensa que escrevo isto por pedantice, espero mostrar-lhe em um momento que tenho um objetivo mais humilde e prático. Eu quero considerar a natureza da ignorância, e começo dizendo que, em todo o sentido erudito e acadêmico, eu próprio sou muito ignorante. Assim como dizemos de um homem como Lord Brougham que seu conhecimento geral é grande, eu diria que minha ignorância geral é grande. Mas este é exatamente o ponto. É um conhecimento geral, e uma ignorância geral. Eu sei pouco de história: mas eu conheço um pouco de quase toda a história. Eu não sei muito sobre Martinho Lutero e sua Reforma, por exemplo, mas sei que ela fez uma tremenda diferença. Ora, não saber que o rápido progresso dos séculos doze e treze fez uma grande diferença é tão extraordinário como nunca ter ouvido falar de Martinho Lutero. Eu não sou muito bem informado sobre Budistas; mas sei que Budistas se interessam por filosofia. Acredite, não saber que os Budistas se interessam por filosofia não é mais impressionante que não saber que os medievais se interessavam por progresso político ou experimentos. Não sei muito sobre Frederico, o Grande. Assustava-me em minha infância a coleção de volumes de Carlyle sobre o assunto: Parecia existir lá um monte de coisas para conhecer. Mas, apesar dos meus receios, eu seria capaz de adivinhar com alguma probabilidade o tipo de substância que tais volumes conteriam. Eu arriscaria (e não incorretamente, acredito) que os volumes conteriam a palavra “Prússia” em um ou mais lugares; que se falaria sobre guerra de tempos em tempos; que alguma menção poderia ser feita a tratados e fronteiras; que a palavra “Silésia” poderia ser encontrada numa procura diligente, assim como os nomes de Maria Teresa e Voltaire; que em algum lugar em todos aqueles volumes, seu grande autor iria dizer se Frederico o Grande tinha um pai, se chegou a casar-se, se possuía grandes amigos, se tinha algum hobby ou qualquer tipo de gosto literário, se morreu no campo de batalha ou em sua cama, e assim por diante. Se eu tivesse reunido coragem para abrir um destes volumes, provavelmente teria encontrado algo ao menos nestas linhas gerais.

Agora troque a imagem; e conceba um jovem comum, jornalista bem educado ou homem de letras de uma escola pública ou faculdade quando pára em frente de uma coleção ainda maior de livros ainda maiores das bibliotecas da Idade Média – digamos, todos os volumes de São Tomás de Aquino. Eu digo que, de nove chances em dez, aquele jovem bem-educado não sabe o que irá encontrar naqueles volumes em capa de couro. Ele pensa que iria encontrar discussões sobre a capacidade dos anjos de se equilibrarem em agulhas; e assim ele iria. Mas eu digo que ele não sabe que iria encontrar um Escolástico discutindo quase todas as coisas que Herbert Spencer discutiu: política, sociologia, formas de governo, monarquia, liberdade, anarquia, propriedade, comunismo, e todas as várias noções que estão em nosso tempo brigando pelo tempo do “Socialismo”. Ou, por outra, eu não sei muito sobre Maomé ou Maometismo. Eu não levo o Alcorão para a cama comigo todas as noites. Mas, se eu o fizesse em alguma noite em especial, em pelo menos um sentido posso alegar saber o que não deve se encontrar lá. Eu entendo que não devo encontrar uma obra repleta de fortes encorajamentos ao culto de ídolos; que os louvores do politeísmo não serão sonoramente cantados; que o caráter de Maomé não será submetido a nada similar a ódio e derrisão; e que a grande doutrina moderna da irrelevância da religião não será desnecessariamente enfatizada. Mas troque novamente a imagem; e imagine o homem modero (o infeliz homem moderno) que levou um volume de teologia medieval para a cama. Ele esperaria encontrar um pessimismo que não está ali, um fatalismo que não está ali, um amor ao barbaresco que não está ali, um desprezo da razão que não está ali. Deixemo-lo tentar. Faria a ele uma de duas boas coisas: ou o faria dormir – ou o faria acordar. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Um milhão de pessoas vão às ruas em Paris contra o casamento gay

Por Fratres In Unum com informações de Grupo Dom Bosco - Um domingo histórico para o ocidente, cujas raízes cristãs são cada vez mais renegadas pelos filhos da Igreja e cruelmente atacadas pelo laicismo maçônico.

Reeditando as manifestações da metade de novembro passado, então minimizadas pelo governo socialista de François Hollande, cidadãos de bem se reuniram na capital francesa para dizer um rotundo não ao projeto intitulado “Mariage pour tous” ["Casamento para todos"], que pretende instituir o “casamento” entre duplas homossexuais, sancionando a elas a faculdade de adotar crianças.


“Manif pour tous” ["Manifestação para todos", um trocadilho com o nome do projeto de lei], a maior das mobilizações, partiu de três pontos da cidade sob a liderança da humorista Frigide Barjot. Declarando-se apolítica e independente, congregou pessoas das mais variadas correntes e afiliações, com o apoio da hierarquia da Igreja francesa — o Cardeal Arcebispo de Paris, Dom André Vingt Trois, manifestou seu apoio às lideranças, enquanto o Cardeal Primaz, Philippe Barbarin, caminhou com o povo.

Os manifestantes exigiam do governo Hollande a realização de um referendo sobre o tema, antes de sua discussão no congresso. O apoio ao casamento gay na França caiu cerca de 10 pontos percentuais desde que opositores começaram a se mobilizar, chegando aos 55%. E, de acordo com pesquisas, menos da metade dos entrevistados aprovavam a adoção de crianças por homossexuais.


A declaração final do “Manif pour tous” solicitou ao presidente francês que recebesse os líderes do movimento nesta segunda-feira, lançando um questionamento ao mandatário do país da igualdade: “O « mariage pour tous » é a inserção em nosso direito de uma discriminação fundamental entre os seres humanos: aqueles que nascerão de um pai e de uma mãe, aqueles que serão legalmente “nascidos” de dois pais e aqueles que serão legalmente “nascidos” de duas mães. Será o senhor, Presidente da República, quem abolirá a igualdade de nascimento entre as crianças?”

Exclusivamente católico.

Instituto Civitas: mulher reza o terço antes da manifestação.
No chão, o cartaz: “A família é sagrada!”.
Um quarto cortejo foi formado pelo Instituto Civitas, que preferiu organizar uma mobilização especificamente católica partindo de outro ponto da cidade, distanciando-se, assim, do que o superior distrital da Fraternidade São Pio X, Pe. Regis de Cacqueray, qualificou de “ateísmo de fato em nome do consenso e da busca pelo número“ da manifestação liderada por Barjot.

“Esta neutralidade que coloca Nosso Senhor Jesus Cristo de lado sempre foi condenada pelos Papas”, afirmou o superior, acrescentando ser necessário dizer abertamente: “a pederastia é um pecado grave, uma transgressão à lei natural, condenada nos termos mais severos pelo livro do Levítico, assim como por São Paulo. Consequentemente, a celebração da união de duas pessoas do mesmo sexo pelo casamento constitui um verdadeiro contra-senso e uma abjeção”, que tornaria a sociedade um “verdadeiro inferno”.

Governo não voltará atrás, apesar de manifestação ‘consistente’.

Todos os grupos se encontraram, no meio da tarde, na esplanada do  Champ-de-Mars, uma das maiores áreas verdes de Paris localizada nos arredores da Torre Eiffel.

De acordo com Le Monde, “independente da amplitude da manifestação, o presidente François Hollande teria deixado claro que o projeto irá ‘a seu termo’. O texto que introduz esta reforma foi apresentado em 7 de novembro ao conselho dos ministros. Ele deve ser submetido à Assembléia Nacional no fim de janeiro. ‘A manifestação, se acreditarmos nas imagens e nas cifras que devem ser confirmadas, é consistente e exprime uma sensibilidade que deve ser respeitada, mas não modifica a vontade do governo de lançar um debate no Parlamento para permitir a votação da lei’, declarou [em nota] o Palácio de Elysée antes da divulgação do número de participantes”. 


Debate a ser lançado apenas na Assembléia, onde a vitória é mais provável. Para a ministra da justiça, Christiane Taubira, toda idéia de consulta à população está descartada e seria “inconstitucional”. A meta do governo é aprovar o projeto até junho deste ano.

Um mar — tranquilo — de gente.

Um ambiente ordeiro e familiar, de jovens a idosos, residentes na capital francesa ou provenientes do interior — foram cinco trens de alta velocidade, 900 ônibus e inúmeros comboios de carros. Segundo as autoridades policiais, 340 mil pessoas, das quais 8 mil no cortejo organizado pelo Instituto Civitas, estiveram presentes na manifestação.

A organização, todavia, que inicialmente declarou haver 500 mil pessoas, refez as contas no início da noite e confirmou a presença de 1 milhão de pessoas. De sua parte, o Instituto Civitas contabilizou em suas fileiras cerca de 50 mil pessoas. O Padre Phillippe Laguerie, do Instituto do Bom Pastor, fala em 1 milhão e meio de pessoas ao todo. Alguns policiais afirmaram ao sacerdote: “Mesmo no Ano Novo, nos Champs Elysée, nunca vimos isso”. Ao padre, a conclusão é evidente: “Taubira, fora. Ela e seu projeto do diabo”.


Inquestionavelmente, a maior manifestação ocorrida na França nos últimos 30 anos, como definiu o Le Figaro. Em dezembro, os partidários do casamento gay também marcharam pelas ruas de Paris: 60 mil pessoas, segundo a polícia, e 150 mil, segundo os organizadores.

Lição aos católicos.

O evento de hoje é uma clara lição à hierarquia católica de como suas palavras podem mobilizar as pessoas. Se o empenho de nossos pastores em participar de comissões, organizar planos pastorais e outras burocracias eclesiásticas, fosse canalizado à defesa dos valores morais e da Fé, as coisas seriam muito, muito diferentes.

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 Veja alguns vídeos



O movimento também obteve manifestações semelhantes por todo o mundo, como se pode ver neste video realizado pelos organizadores do Manif pous tous:

 

Veja mais fotos


















 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A Primeira Comunhão e a morte do jovem cavaleiro Vivien

O poema “La Chanson de Guillaume” gira em torno de uma batalha desenvolvida por Guilherme do Nariz Curvo contra os sarracenos de Deramé, na planície de Larchamp.

Vivien atira-se à luta acompanhado de seu primo Girart. A batalha é calorosa e os franceses são dizimados.

Ao cair da tarde, Vivien envia Girart a pedir ajuda a Guilherme.

O conde Vivien perdeu 10 homens, dos 20 que lhe restavam. Os outros perguntaram:

— Que faremos na batalha, amigos?

Disse Vivien:

— Em nome de Deus, senhores, escutai-me. Enviei Girart levando uma mensagem. Hoje mesmo vereis Guilherme ou Luís, o piedoso. Com um ou outro venceremos os árabes.

— Avante, pois, valoroso marquês — responderam eles.

E ei-los que marcham contra o inimigo.
Os pagãos colocaram Vivien em grande perigo. De seus 10 homens, não deixam um só vivo. É Segunda-feira à noite, e ele fica só na peleja. Tendo permanecido só, com seu escudo, ele os atormenta com cutiladas repetidas. Com sua espada, ele abate uma centena.

— Não chegaremos ao final — diziam os pagãos — enquanto deixarmos seu cavalo vivo debaixo dele.

Eles o perseguem através dos montes e vales, como o caçador acua um animal selvagem. Um grupo o surpreende no meio de um pequeno vale. Atiram sobre ele flechas e dardos agudos, que se enterram no corpo de seu cavalo. Um bárbaro, montado em rápido cavalo, avança pelo meio do vale.

Três vezes ele brandiu a lança que tem na mão direita, e numa quarta vez a lançou. O projétil se enterra no lado esquerdo da cota de malhas, fazendo saltar 30 escamas. Vivien recebe no corpo uma grave ferida, e sua insígnia branca lhe escapa das mãos. Jamais ele a reerguerá.

Ele coloca a mão atrás de si, sente a haste e extrai o dardo de seu corpo. Ele atinge o pagão nas costas e lhe enterra o ferro nos rins. De um só golpe ele o faz cair morto.

— Adeus, patife! Bérbere perverso! — brada o jovem Vivien — Não retornarás mais a teu país, e jamais te vangloriarás de ter matado um nobre de Luís.

Depois ele tira sua espada e retorna a combater. Quando ele golpeia as cotas de malha e os elmos, seus golpes os abatem até o chão.

— Santa Maria, Virgem Mãe e Donzela, enviai-me Luís ou Guilherme. Deus, Rei da glória, a quem devo a vida, vós que nascestes da Virgem Maria e cujo corpo foi criado em união com as Três Pessoas; vós que pelos pecadores sofrestes sobre a Cruz; que fizestes o céu e as estrelas, a terra e o mar, o sol e a lua, Eva e Adão para povoar o mundo, tão verdadeiramente como sois o verdadeiro Deus, impedi-me de ser tentado a recuar um só passo. Antes, que eu perca a vida. Fazei que eu observe meu voto até a morte, e que, graças à vossa bondade, não o atraiçoe. Santa Maria, Mãe de Deus, tão verdadeiramente que carregais Deus como vosso filho, protegei-me, por vossa santa piedade, para que os vilões sarracenos não me matem.

Logo que pronunciou essas palavras, se arrependeu:

— Tive um pensamento tolo, querendo evitar a morte. Nosso Senhor não agiu assim, Ele que sofreu, por nossa Redenção, a morte dos crucificados. Não devo, Senhor, pedir um adiamento da morte, posto que Vós mesmo não quisestes isso. Enviai-me Guilherme de Nariz Curvo ou Luís, que governa a França. Graças a ele nós obteremos a vitória.

O calor era forte, como em maio, durante o outono. Os dias eram longos, e ele jejuava havia três dias. Sofria os tormentos da fome e da sede. O sangue claro escorria de sua boca e da chaga que tinha ao lado esquerdo. Não havia água nas proximidades; a menos de quinze léguas, não conseguiria encontrar nem riacho nem fonte; não havia senão água salgada, das ondas marinhas.

No entanto, no meio da planície corre um vale com água lamacenta, brotada de uma rocha à beira-mar, que os sarracenos turvaram com seus cavalos. Está suja de sangue e de miolos. O bravo Vivien corre para lá e, inclinando-se, toma a contragosto aquela água salobra.

Os inimigos fazem chover sobre ele os golpes de lança, mas a cota é sólida e lhe protege o busto. Somente suas pernas e seus braços recebem mais de vinte ferimentos. Ele então se reergue, como um javali feroz, e tira a espada que lhe pende ao lado. Defende-se com coragem, mas os outros o atormentam como os cães a um javali. A água salobra que ele bebeu, e que não pode reter, lhe sai pela boca e pelo nariz. Ele sofre tanto, que sua vista se turva e ele perde a direção. Para acabar com sua bravura, os pagãos o cercam mais de perto.

Os inimigos o cobrem de golpes de lança e flechas de aço, por todas as partes. Elas se cravam em seu escudo, tão numerosas que o conde não o pode manter à altura de sua cabeça, e o deixa escorregar para os pés.

Lançando setas agudas, dardos e ferros, os inimigos despedaçam a cota do conde. O aço cortante fende o ferro leve de seu peito coberto de malha. Suas entranhas saem para fora. Como ele sente que seu fim está próximo, roga a Deus misericórdia.

Vivien caminha através da planície, arrastando suas entranhas entre seus pés e segurando-as com a mão esquerda. Seu elmo afunda até a altura do nariz. Em sua mão direita ele segura uma lâmina de aço, vermelha da copa à ponta e até à bainha ensanguentada.

Já atormentado pela agonia da morte, ele caminha sustentado por sua espada. Pede com fervor a Jesus Todo-Poderoso de lhe enviar Guilherme, o bom francês, ou o Rei Luís, valente guerreiro.

— Verdadeiro Deus de glória, unido em Trindade, Tu que nasceste da Virgem Maria e foste criado em união com as Três Pessoas, Tu que foste crucificado pelos pecadores, defende-me, ó Pai! Por tua santa bondade, para que eu não seja tentado a recuar um passo sequer na batalha, envia-me, Senhor, Guilherme do Nariz Curvo, porque ele sabe dirigir uma batalha. Deus, nosso Pai, Rei glorioso e forte, que jamais me venha a ideia de recuar um passo por medo da morte.

Um bérbere, vindo pelo pequeno vale e dando galope a seu cavalo rápido, fere na cabeça o nobre barão, com uma lança de aço que leva na mão direita, e seus miolos se espalham pela grama. Vivien cai de joelhos. É uma grande perda a morte de um tal homem!

Os pagãos, surgindo de todas as partes, fazem em pedaços o seu cadáver. Eles o levam e o colocam sob uma árvore, ao longo do caminho, para que os católicos não o achem mais.

No campo de Aliscans, o exército cristão, comandado por Guilherme d’Orange — Guilherme do Nariz Curvo — tinha sido derrotado pelos sarracenos. Podiam-se contar apenas quatorze sobreviventes. Próximo a uma fonte, em um prado, jazia um jovem, quase menino, que apesar disto era um guerreiro que nunca havia recuado. Tratava-se de Vivien, sobrinho de Guilherme, a quem ele amava como a um filho.

Percorrendo o campo de batalha, Guilherme reconhece Vivien e o crê morto, mas este faz um leve movimento. Docemente o nobre duque se inclina e lhe murmura ao ouvido:

— Tu não gostarias de comungar Nosso Senhor Eucarístico? — e lhe mostrou uma Hóstia consagrada. — Porém é preciso que faças tua confissão.

— Eu quero muito — responde uma voz fraca — mas apressai-vos; eu vou morrer. Tenho fome deste Pão. Eis minha confissão: Não me recordo de uma só falta, a não ser que eu tinha feito o voto de jamais recuar um passo diante dos pagãos, e tenho muito medo de haver hoje faltado com a promessa feita ao bom Deus.

Guilherme do Nariz Curvo tira a Hóstia de uma teca que trazia ao peito, e a aproxima dos lábios entreabertos de Vivien, cujos olhos se iluminam.

A morte lhe desceu ao coração, quando acabou de fazer sua primeira comunhão.

Do original: “La Chanson de Guillaume”. “Extraits des Chansons de Geste” - Larousse, 1960, pp. 53; Funck-Brentano, “Féodalité et Chevalerie”.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Por que a manjedoura?

Por São João de Ávila, Sermão de Natal. Pregado no dia de Santo Estevão (26 de dezembro).

E o reclinou numa manjedoura (Lc 2, 7). Por que numa manjedoura? Precisamos da luz de Deus para compreendê-lo. 

Minha Mãe, mais terna que todas as mães, por que tiraste o Menino dos teus braços e o colocaste na manjedoura? Não vês que aí não há almofadas? Senhora, não estava mais quente e mais aconchegante nos teus braços do que na dura manjedoura? Então por que o colocaste aí? Porque não havia lugar para eles na estalagem (Lc 2, 7). Que condenação das minhas riquezas, dos meus prazeres e dos meus desvarios! 

Senhor, Vós que dais morada aos homens e ninhos às aves, Vós que a todos recebeis, não tendes um lugar para Vós mesmo? Se não havia lugar na hospedaria, não haveria lugar no teu regaço, Senhora? Tu vales mais que os palácios, que os homens e os anjos; mais contente está Ele nos teus braços do que em palácios ou mesmo nos céus. Não havia lugar no teu colo? Diz-nos, pelo amor que tens ao teu Filho, por que o tirastes do teu regaço e o colocaste na manjedoura.


Grave-se isto nos vossos corações: tudo o que a Virgem Maria fez com o seu Filho foi por graça e iluminação do Espírito Santo. Assim como o concebeu pelo Espírito Santo, assim também aprendeu dEle a cuidar do seu Filho. Essa mesma graça nos é necessária, tanto para que Cristo entre nas nossas almas como para que possamos conservá-lo e não o percamos. Mas continuamos a perguntar: Senhora, por que o tiraste dos teus braços e o colocaste na manjedoura? 

Para me curar. 

O próprio Filho, pela ação do Espírito Santo, a inspirou a colocá-lo na manjedoura. E já que foi Ele quem a inspirou, perguntemos-lhe: - "Por que quereis, Menino, sair dos braços da vossa Mãe e colocar-Vos na manjedoura?" - "Para dar uma grande bofetada na vossa tibieza e frouxidão!"

Não o fez sem causa, e praza a Deus que, tendo agido assim, alcance de nós o que deseja. - "Senhor, por que na manjedoura?" - "Porque Adão, ao pecar, foi jogado no lugar dos animais. O homem que vive da opulência e não reflete é semelhante ao gado que se abate (Sl 48, 21)". Seu criou este mundo para os animais e o paraíso terrestre para os homens. Adão pecou, e por isso vive no lugar dos animais. E porque este Menino veio pagar o mal que Adão cometera, sai do lugar onde estava tão feliz, o ventre de sua Mãe bendita, e é desterrado para o lugar dos animais. 

Dizei-me: há lugar mais desprezível para um recém-nascido do que uma manjedoura e, depois de crescido, do que uma cruz? Senhor, sabíeis que o homem tem o coração empedernido, e por isso o Alto teve de descer tão baixo, a fim de dizer aos homens que eles se enganam ao procurar riquezas, honras e deleites na terra: "Ou Cristo está enganado" - diz São Bernardo - "ou os homens mentem e se enganam com as suas riquezas e deleites. Ora, é impossível que Cristo se engane, mas os homens enganam-se facilmente"* .

Como podes, homem regalado, continuar a viver entre molícies e deleites, vendo Cristo numa manjedoura? Não te envergonhas, tu que só buscas honrarias? Como podes suportá-lo? Se te lembrares de que Cristo está numa manjedoura, não sentirás vergonha de tanto te enalteceres neste mundo? Ele é o Filho muito amado de Deus Pai, mas quando nasce é numa manjedoura, quando morre é numa cruz! 

In Nativ. Domini sermo, 3, 1; ML 183, 123.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

"O meu encontro com Cristo"


Entrevista de Bruno Tolentino a Vando Valentini (Revista Passos n. 40, junho/2003)

Una educação moderna, intelectual, revolucionária. Depois, uma vida de Dr. Jekill e Mr. Hyde. O encontro com grandes personalidades da poesia no mundo todo e, enfim, a descoberta da fé. História de um poeta e do seu retorno à Igreja.
          Bruno Tolentino nasce em 1940, em uma tradicional e rica família carioca. Desde criança convive com intelectuais e escritores que circulam nas recepções e participam do cotidiano de sua casa, onde todos falam inglês e francês com fluência. Em 1964, com o golpe militar no Brasil, parte para a Europa e Elizabeth Bishop o apresenta a Wystan Hugh Auden. Na Itália torna-se hóspede do poeta Giuseppe Ungaretti. Na Inglaterra Bruno ocupa o cargo de professor nas Universidades de Oxford e Essex, mas, em 1987, sob a acusação de tráfico de drogas, é condenado a 11 anos de prisão. Durante 22 meses cumpre sentença em Dartmoor, sendo que ao final desse período a pena é suspensa. Retorna ao Brasil em 1993. Em 1995 recebeu o prêmio “Jabuti” pelo livro As horas de Katarina e nesse ano acaba de vencer pela segunda vez o prêmio como reconhecimento do seu mais recente trabalho, o livro O mundo como idéia.

          O senhor nasceu no Rio de Janeiro de uma família religiosa, mas na sua juventude deixou de ser católico. Como se deu a sua relação com Deus e o fato de ser poeta?

          Já aos 23 anos eu era um bom poeta, mas isso sem nenhum mérito meu. Era mais uma decorrência da maneira como eu tinha sido educado, dos lugares que freqüentava. Mas também haveríamos de reconhecer que nesse processo todo entra sem dúvida a graça do Espírito Santo. Aos vinte anos ganhei, aqui no Brasil, o prêmio Revelação com o livro Anulação e Outros Reparos (São Paulo, Massao Ohno Editor, 1963), dois outros livros escrevi na França: Le Vrai Le Vain (O Verdadeiro O Vão, Paris, Aethels, 1971) e Au Colloque des Monstres (No Colóquio dos Monstros, Paris, 1973). E na Inglaterra About the Hunt (A Propósito da Caçada. Inglaterra, Oxford University Press, Inglaterra, 1978).
          Esta obra poética já poderia ser suficiente para deixar uma marca importante, apesar disso foi com a minha conversão que a minha poesia amadureceu e ficou infinitamente mais importante. A minha trajetória entre os 17 aos 39 anos foi de um certo modo, mas aos 40 anos eu comecei meu caminho de volta para Igreja. O Espírito Santo sempre colaborou comigo, mas foi nesse momento que eu comecei a colaborar com Ele.
          Foi pela mão de Maria, com quem sempre mantive uma relação estreita – mesmo durante a fase na qual não acreditava no Filho dela –, que vivia o relacionamento com o Mistério. Mesmo não acreditando em Deus, não largava o manto de Maria.
          Lembro-me que aos cinco anos de idade minha mãe me levava com ela nas orações das Filhas de Maria e uma vez uma senhora me disse: “Veja que aquela nossa senhora ali, foi aquela que sorriu para Santa Teresinha”. Nunca mais esse fato saiu da minha cabeça. Minha relação com o Mistério durante os anos da minha juventude passou através das conversas com uma estátua de pedra da Virgem Maria. Foi o que aconteceu comigo, mas essas coisas podem passar a ter várias manifestações. O que interessa não é o como, senão o fato de que as coisas de Deus quando tocam, ninguém de nós consegue mudar.

          Na conversão o que acontece é que o que existia antes se torna mais verdadeiro. Poderia nos descrever esse processo, se ocorreu na sua experiência?

          A conversão foi o processo que me levou para a cadeia. A partir de minha conversão vi que não podia mais viver uma vida dupla, a vida do médico e do monstro (refere-se ao famoso livro de R. L. Stevenson, O médico e o monstro, que conta a história de Dr. Jekyll e Mr. Hyde; nde); antes disso fazia um pouco de tudo, tráfico de influência, de droga, fui para o Líbano, me meti na guerra e outras maluquices desse tipo. Um dia uma moça libanesa me disse: “Você precisa botar honra no seu código”, isto é, me faltava integridade. Fui entender isso somente quando um aluno meu em Essex foi se tornar monge beneditino e encontrei com ele. Era mestre dos noviços e foi ele que me falou pela primeira vez de integridade.
          A minha educação foi tipicamente francesa: uma educação da esperteza, da originalidade, uma educação anti-tradicional, educação revolucionária para a qual não há virtudes morais, todas as coisas são instrumentais, meios para fins. Eu passei sete anos para me desvencilhar deste pensamento moderno. Só então percebi que os meus grandes mestres na poesia, Manuel Bandeira aqui no Brasil, Ungaretti na Itália, Saint-John Perse na França e W. H. Auden na Inglaterra eram todos católicos. Havia outros aos quais poderia me ligar, como Montale ou Bonnefoy, mas estes mesmo sendo amigos, não foram tão importantes.
          Sete anos foram necessários para diagnosticar o meu problema que não era religioso, não era uma questão de fé, no sentido de crença, como diz Katharina no meu livro: “as crenças não te melhoram”. O meu era um problema de comportamento moral. Como diz Giussani: “o que te melhora é olhar para uma presença”. Explico-me: diante de Cristo, você não pode mais trapacear, diante de uma presença não pode ficar ambíguo. Quando a presença é real você fica constrangido.
          A noção de indivíduo ficou mais clara para mim. Ser indivíduo é ser indivíduo diante de alguém, diante de Cristo. Para Voltaire é outra coisa, ser indivíduo é contestar uma série de coisas, é ser revolucionário, é estar diante do Estado. É se servir da realidade e não servir a realidade. É estar diante de idéias, coisas enormes e impessoais, ninguém está te olhando.
          Nesses sete anos eu tive que me départir, separar-me desta segunda natureza que foi a minha educação laica. Tive que ir para cadeia, porque lá eu não podia mais trapacear, a polícia estava sempre me olhando e eu não tinha mais nem os meios físicos para trapacear, não podia mais mentir, não podia mais manter uma vida dupla.
          O cristianismo não é uma teoria, não é nem a voz de Deus, é pura e simplesmente uma presença de alguém real, sobrenatural, que está sempre com você e diante do qual você deve fazer tudo o que a vida te impulsiona a fazer.

          Que aspectos de sua poesia encontraram a verdade e amadureceram neste encontro com a Presença?

          Com a minha conversão, não me tornei um poeta melhor. A busca pelo real já estava presente na minha juventude, dizia: o real é esta constante correção do comportamento humano, o real está aí para que a pessoa busque sempre um modo de convívio com ele, um respeito fundamental.
          Quarenta anos depois, em 2002, conheci o pensamento de padre Giussani quando ele diz: “a inexorável positividade do real”, e descobri este ponto de contato com ele. Contato que não encontrei nem com Von Balthasar nem com Eric Voegelin, nem com os grandes pensadores que me influenciaram.
          Há muito mais contatos com Padre Giussani, porque ele é um verdadeiro educador, é um formador da consciência alheia, não está interessado em vender o seu peixe, mas em treinar pescadores.
          Outro aspecto muito importante de meu encontro com Padre Giussani é o papel do laico. Desde a débâclerevolucionária o papel do laico (do professor, do escritor, do jornalista, do intelectual) é cada vez mais importante para testemunhar Cristo neste mundo tão laicizado. Na Rússia foi banida a Bíblia e cerceada a Igreja, mas tudo passou através de Tolstoi e Dostoievski.
          Mas voltando à sua pergunta inicial sobre a conversão. É como a parábola do sal. Cristo é o sal. O sal realça o gosto da comida, não muda o gosto da comida, torna o peixe mais peixe, a carne mais carne. Assim como o encontro com Cristo não muda o que você é, mas agora você se torna você na dosagem perfeita: aquilo para que você era destinado ser. Eu estou neste processo em que sou cada vez mais eu mesmo. Eu parei de ser uma caricatura de mim mesmo. Como dizia Píndaro: “Torna-te o que tu és”. Você se torna o que você é. Há um nível supra-real da pessoa. É isso o que só Deus sabe. Nesta perspectiva o ato poético é um ante-gosto, um antepasto desta plenitude.

          A posição contrária à atenção ao real é a posição ideológica. Hoje parece ser a época do fim das ideologias, da crise desta forma de pensamento. O senhor concorda com isso? Parece que acabaram as ideologias, mas na vida do cotidiano se vê quanto ainda somos dominados por um pensamento ideológico que não nos permite olhar para a realidade.

          Não acredito que a “dama idéia” passe de moda, nem desista. Que fique bem claro que isto de que estou falando não é uma “coisa”. É algo constitutivo do ser humano. O que entrou em crise foi o modo como a ideologia se apresenta, mas a “dama idéia” não larga o osso. Porque o contrário dela é a liberdade, e a outra coisa que a época moderna não aceita é a liberdade. Desde quando o cristianismo está na defensiva a liberdade está em cheque, porque a liberdade é esta relação do homem diante de Deus, esta relação contínua e criativa com a realidade.
          Qualquer que seja o apelido que a “dama idéia” tenha, poderá ser vermelha, preta ou azul… onde não estiver o cristianismo tudo pode ser reduzido a ela. O cristianismo é este chamado à relação responsável homem a homem, do homem-Deus rumo ao homem, do Filho de Maria, que um dia nasceu e morava numa rua tal e que portanto não posso reduzir a uma idéia. Onde não houver esta relação fundamental com o fato humano fundamental, o Filho que saiu do ventre de Maria, a “dama idéia” volta a dar o show dela. Veja esta Universidade Católica, para transformá-la naquilo que fizeram, precisou primeiro esvaziar o cristianismo de seu conteúdo, reduzindo-o a uma ótima idéia (vamos lutar para os pobres, vamos resolver as coisas etc…) assim a universidade se torna uma instituição. Para isso é preciso que desapareça tudo o que cheire a humanidade pura, eliminar Maria e os Santos, desta forma Deus, o Deus Trinitário, fica lá no céu. Para que a “dama idéia” possa dar as cartas é necessário esvaziar o cristianismo de conteúdo e deixá-lo no reino do conhecimento. O cristianismo seria a milésima idéia que a Humanidade não pôs em prática. Não se trata mais dessa “inexorável positividade do real” que se me impõe e que impõe o outro. Assim é possível substituir a presença inevitável e opaca do outro com um receituário.

          O senhor compartilhou o último ano de vida e acompanhou a doença do padre Virgilio Resi. Sendo assim, como o senhor vê a experiência do sofrimento e da dor?

          A segunda parte do meu último livro O Mundo como Idéia (Rio de Janeiro, Globo, 2002), com o título Lição de Trevas fala exatamente desse assunto, o sofrimento e sua função de transfiguração.
          No caso específico da tragédia que vivemos com o Padre Virgilio é como se uma vez mais Cristo tivesse consagrado a sua Igreja. O Movimento dependia imensamente dele. Padre Virgilio era um homem de intelecto brilhante e de intensa humanidade. Ele vivia no Santuário de Maria da Piedade e ali sofreu aos 50 anos o seu martírio. Ou você percebe isso de certa forma, como uma unção excepcional de Deus, que deu o seu próprio Filho, ou você joga tudo fora. O Sangue dos mártires é aquilo que sempre manteve a Igreja viva.
          O Dom do Sangue (Blutvergiftung), é o nome de um poema do livro As Horas de Katharina (São Paulo, Companhia das Letras, 1994). Isso está na base do cristianismo, começa com o Cristo e continua com o sangue dos mártires. Depois disso parece que o martírio acabou, mas só não se mata mais institucionalmente, ou melhor não aparece. Mas continua, vejam este meu poema que conta a experiência de uma monja carmelita:Blutvergiftung. Peguei essa expressão de Lutero que disse duas coisas muito verdadeiras sobre isso: a cruz não pode ser escolhida, é sempre imposta, não é um enfeite, não existe uma cruz compatível com a auto-estima, compatível com aquilo que você é.
          Porque a gente corre o perigo de não notar a presença de Deus, você acha que Cristo não está presente. A pessoa se parece mais com Deus quando a criatura perdoa; e não é por moralismo, nem por uma boa idéia, mas porque é a coisa mais fácil para Deus fazer. Daí se vê que é verdade que Cristo se faz presente quando Ele sofre, quando Ele doa seu sangue. Aí é na morte que o cristão se confunde com Cristo porque é neste momento que ele oferece seu sangue.
          O fim de Virgilio foi muito doloroso. Ele me dizia: “Ainda ontem tivemos aquela conversa sobre a ‘inexorável positividade do real’. E agora? Ou isto é positivo ou tudo foi uma grande bobagem”. Nessa hora ninguém achava que ele iria morrer. Virgilio viveu um ano de sofrimento. Se a Igreja é o Corpo Místico de Cristo, este corpo não pode existir sem sangue, e este sangue é o meu, é o seu, é o suor do sangue que a gente sua o dia inteiro.
          Agora Virgilio está na Glória, com tudo aquilo que ele sofreu aqui… É claro que saudade a gente sente, mas…, e o nosso chamado não é para se tornar como o Virgilio, pois cada um é o que é. Cada um deve percorrer o mesmo caminho, se identificar com ele, e oferecer o próprio sacrifício. Para mim o martírio é outro: é agüentar esse povo que não entende do que estou falando com a minha poesia.

Fonte: http://www.formacaopolitica.com.br/