Assoc. Fronteira Católica: São João Batista
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Sermão do III Domingo do Advento - Pe. René Trincado

Se a trombeta dá um toque ambíguo, ninguém se prepará para a batalha. (I Cor XIV, 8).


O Evangelho deste domingo, como o anterior e o seguinte, fala desse grande santo que foi João Batista. Diz: E este foi o testemunho de João quando os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas a perguntar-lhe: “Tu quem és?” E confessou e não negou. Confessou: “Eu não sou o Cristo”.

Confessou e não negou: confessou a verdade e não a negou. São João Batista é um modelo perfeito de santo amor à verdade para todos os cristãos e, porque tinha a missão de anunciar a Cristo, em particular para os ministros de Deus, para os que devem falar em nome de Deus. Suas palavras sempre foram frontais, claras e diretas, nunca se valeu de rodeios, nunca usou expressões complicadas ou alambicadas. Alma reta até o extremo da mais elevada santidade, as palavras de Batista não eram ambíguas nem fazia cálculos sobre o efeito de seus feitos: sensivelmente dizia a verdade nua e crua. E por isso, precisamente por isso, o mataram: por ter falado sempre como deve falar um profeta de Cristo, um homem de Deus; sempre com esse “sim sim, não não” que manda Nosso Senhor Jesus Cristo. Por haver procedido de maneira covarde, diplomática ou política; por ficar calado, por mentir ou por ter usado uma linguagem complicada ou ambígua, nunca haveria de ser degolado. Mas, São João Batista não era esta classe de homem e soube levar sua cruz para a glória de Deus.

Quê diferença, estimados fiéis, entre a fortaleza, a veracidade e a franqueza heróicas de São João Batista e a atitude do clero modernista e, também e infortunadamente, das atuais autoridades da FSSPX, cujas palavras vazias de verdade chegaram a ser algo habitual. Nos últimos dias temos sido testemunhas do triste espetáculo de dois novos escândalos nesta ordem de coisas: em um, publicamente um Superior de Distrito nega de maneira direta um ponto da doutrina católica sobre o deicídio; em outro, o Superior Geral renega de uma verdade “politicamente incorreta” sobre Francisco, que havia dito meses antes. Fez uma retratação parcial e disfarçada de esclarecimento. São João Batista, cujo coração era um incêndio de amor à verdade e de correlativo ódio ao erro, confessou e não negou a verdade. Estes depreciaram a verdade... mas, a verdade é Cristo, e – disse São Paulo – não vos enganeis: de Deus nada se burla (Gal VI, 7).

Quem és ­– perguntavam a São João Batista – para que podamos dar resposta aos que nos enviaram? Quê dizes de ti mesmo? Ele disse: “Eu sou a voz que clama no deserto: endireitai no caminho do Senhor, como disse Isaías, o profeta”.

Disse Santo Tomás de Aquino, citando a Orígenes (Catena Áurea), que o efeito desta voz que clama no deserto deve ser que as almas separadas de Deus voltem ao caminho reto que conduz a Deus, não seguindo mais a malícia dos passos retorcidos da serpente, senão que (agindo)... sem mescla alguma de mentira. Por isto diz: endireitai no caminho do Senhor.

São João Batista era a voz que ia adianta de Cristo, o reto Caminho, a Verdade e a Vida; anunciando-O e guiando os homens até Ele como as trombetas guiavam aos soldados nos combates antigos. Cada toque da trombeta indicava aos combatentes quê movimento ou manobra fazer no campo de batalha, começando pelo toque de alarme (al arma, pegar o armamento, munir-se) que era a ordem inicial. Por isso diz São Paulo (em I Cor): se a trombeta dá um toque confuso, ambíguo, ninguém se prepara para a batalha.

Os Bispos e Sacerdotes são as trombetas de Deus que, através de palavras claras, diretas e cheias de sabedoria divina, guiam aos homens para que estes militem sob a bandeira de Cristo, levem esforçadamente o estandarte da Cruz e combatam valorosamente por N. Senhor. Mas, sem os Bispos e Sacerdotes mudam a claridade de Cristo nas palavras pela obscuridade de uma linguagem deliberadamente ambígua ou falsa, se fazem a si mesmos trombetas inúteis que dão toques confusos ou enganosos, e que de nada servem nas batalhas, como não seja para desorientar, confundir e paralisar aos que devem pelejar por Cristo, causando a derrota.

Essas trombetas deliberadamente ambíguas, esses Bispos e Sacerdotes que falam como o que são: almas irresolutas, covardes e incostantes, canas dobradas por qualquer vento; se tornam traidores. São semeadores de joio. São maus pastores, mercenários. São sal desvirtuado: Vós sois o sal da terra. Mas, se o sal se desvirtua, com quê se salgará? Já não serve para nada mais que para ser atirado fora e pisoteado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode ocultar uma cidade situada no cume de um monte. Nem tampouco se acende uma lâmpada e a colocam debaixo do alqueire, senão sobre o candeeiro, para que ilumine a todos os que estão na casa. Brilhe assim vossa luz diante dos homens – por vossas palavras cheias de franqueza, de amor à verdade e de fé! – para que vejam vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus (Mt V, 13-16).

São maus pais: Quê pai há entre vós que, se seus filho lhe pede um peixe, no lugar de um peixe lhe dá uma cobra das palavras pouco retas; ou, se lhe pede um ovo, lhe dá um escorpião das expressões confusas ou ambíguas que envenenam? Ou se lhe pede pão lhe uma pedra da mentira? (Mt VII, 9; Lc XI, 12).

São autores de escândalo, porque com essa linguagem indigna dos ministros da Verdade, causam perplexidade entre as pobres ovelhas e induzem ao erro às almas dos débeis e indefesos. Deus tenha misericórdia destes homens traidores porque disse Nosso Senhor: Mas, se alguém escandalizar um destes pequenos que crêem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa! (Mt XVIII, 6-7).

Que pela intercessão de São João Batista e de Maria Santíssima, Deus nos conceda perseverar na Resistência a todo erro e no verdadeiro amor à Verdade.

Tradução: Grupo Dom Bosco

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sermão da Festa da Santa Cruz - Pe. René Trincado


Ele venho primeiro, e levou sua cruz e morreu na cruz por ti para que tu também a leves e desejes morrer nela. Porque se morres junto com Ele, viverá com Ele. Verdadeiramente, da cruz tudo depende, e em morrer para si mesmo está tudo. (Imit. De Cristo, L. II, cap. XII)

Estimados fiéis, celebramos a festa da Exaltação da Santa Cruz. Porque os padecimentos dos católicos são como farpas [fragmentos] da cruz de Cristo, convém recordar, nesta ocasião, algumas verdades sobre o sofrimento.

A primeira verdade que convém recordar é que nesta vida é impossível evitar o sofrimento e que não é por sermos católicos que vamos sofrer menos.

Cristo disse que vamos sofrer. Em qual parte dos Evangelhos há a promessa de uma felicidade completa ou estável nesta vida? Ao contrário, nos diz: Bem aventurados os que sofrem na terra, porque serão felizes no Céu. Onde disse N. Senhor que estaremos livres de tribulações? Ao contrário, nos promete dizendo: no mundo tereis tribulações, mas, ânimo! Eu venci o mundo.

Se não podemos evadir o sofrimento, se trata então de saber sofrer, de saber levar a cruz. Diz “A Imitação de Cristo”: "Se te dispõe a fazer o que deves, isto é, sofrer e morrer, terás paz. Aquele que sabe sofrer melhor, terá maior paz. Este é vencedor de si mesmo e senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu" (L. II, cap. III e XII).

A segunda verdade é conseqüência da primeira: temos que aceitar o sofrimento. Devemos perguntarmo-nos se vivemos como amigos ou como inimigos da cruz de Cristo. Porque o mundo nos arrasta a buscar sempre o bem-estar, a comodidade e o prazer, e a evitar e detestar todo sofrimento. Se esta é nossa atitude habitual, não sabermos sofrer e somos inimigos da Cruz de Cristo.

Se diz em certa poesia citada por S. Luis Grignón de Montfort em sua “Carta aos amigos da Cruz”:

Escolha uma cruz das três do Calvário;
Uma deve ser escolhida, então escolha corretamente;
Vocês devem sofrer como um santo ou um bandido arrependido,
Ou como um reprovado, em uma tristeza sem fim.

Há, então, três maneiras de sofrer: como santo, como penitente e como réprobo. Como santo sofria Cristo, como penitente sofria Dimas, o bom ladrão, e como réprobo sofria Gestas, o mau ladrão. Os três sofriam o mesmo tormento da Cruz. Dos dois ladrões, dos dois pecadores do Calvário, um desde a cruz subiu ao Céu e o outro desde a cruz caiu ao inferno. Este recusou a cruz, aquele a aceitou, e Cristo a amou.

Sofremos em justo castigo pelo pecado original e por nossos pecados pessoais. Portanto, ninguém, quando estiver crucificado, pense que Deus o trata injustamente, senão diga com Jó: Deus dá e Deus tira. Como Deus quis, assim se fez. Bendito seja o Nome de Deus (Jó I, 21); e com o publicano: tem piedade de mim, Senhor, porque sou um pecador (Luc. XVIII, 13). Também sofremos para sermos purificados. Porque quer Deus – se lê em “Kempis”- que aprendas a sofrer a tribulação sem consolo, e que te submetas de todo a Ele, e te faças mais humilde com a tribulação. E tem por certo que te convém morrer vivendo, pois quanto mais morre cada um a si mesmo, tanto mais começa a viver para Deus. Porque temes tomar a cruz, pela qual se vai ao reino? Na cruz está a saúde, na cruz está a vida, na cruz está a defesa dos inimigos, na cruz está a infusão de suavidade soberana, na cruz está a fortaleza do coração, na cruz está o gozo do espírito, na cruz está a suma virtude, na cruz está a perfeição da santidade. Não está a saúde da alma nem a esperança da vida eterna, senão na cruz. Toma, pois, tua cruz, e segue a Jesus, e irás para a vida eterna (L. II, cap. XII).

Dos crucificados no Calvário, um recusava a cruz, outro a aceitava e Cristo a amava. Não só devemos aceitar com resignação as cruzes, senão que Deus nos pede dar um passo a mais, ou melhor, um salto ao infinito. Este passo é algo totalmente incompreensível e uma loucura para os mundanos, mas é um passo de amor heróico reservado só aos católicos: deves amar o sofrimento, devemos amar a cruz. Diz “A Imitação de Cristo”: Tenho muitos amigos que dizem amar-me, mas que no fundo me aborrecem porque não amam minha Cruz. Tenho muitos amigos de minha mesa, mas muito poucos de minha Cruz (L. II, cap. II). E continua: quando chegares a tanto que a aflição te seja doce e gostosa por amor de Cristo, pensa então que vai bem; porque chegaste ao paraíso na terra. Quanto te parece pesado o padecer, e procuras fugir-lhe, creia que vai mal, e onde quer que vá te seguirá a tribulação (L. II, cap. XII).

Quando se compreende o sofrimento –disse Mons. Lefebvre (A Missa de Sempre)- este se converte em alegria e se transforma em tesouro. Nossos sofrimentos unidos aos de N. Senhor e a de todos os mártires, aos dos santos, aos de todos os católicos, aos de todos os fiéis que sofrem no mundo; nossos sofrimentos unidos à Cruz de Cristo se convertem em um tesouro inexpressável e inefável e alcançam uma eficácia extraordinária para a conversão das almas e a nossa. E aqui está a quarta verdade e mistério dos mistérios: o barro se converte em ouro, a escuridão em luz!: o sofrimento deve ser amado porque unido à cruz de Cristo se transforma em redenção.

Os pagãos e os cristãos mundanos vêem o sofrimento como um puro mal. Nós podemos sofrer para salvar almas se unimos nossos sofrimentos aos sofrimentos de N. Senhor Jesus Cristo. Como? Não é coisa fácil. Não é fácil estar sorridentes e serenos na Cruz. Mas, Cristo não nos pede isso! Deste antes da crucificação, Ele sofria angustias de morte, até o extremo de suar sangue. Como fazer, então, para unir nossas cruzes à Cruz de Cristo? Responde Kempis,humilhando nossas almas debaixo da mão de Deus em toda tribulação” (L. I, cap. 13)Isso foi o que fez o bom ladrão. Isso é tudo que Deus nos pede quando sofremos: que entre sangue, suor e lágrimas nos lembremos de sua cruz, com humildade e fé, com espírito de submissão, penitência e de adoração. O bom ladrão é um grande mestre espiritual para os que se sentem crucificados.

Porque Cristo quis nos redimir através do seu e do nosso sofrimento, o mundo, hoje mais do que nunca, e cada vez mais; odeia a cruz, odeia o sofrimento que, unido ao Cristo crucificado, adquire um valor infinito e faz-se redentor. Nós estamos firmes na fé e acreditamos que sofremos para salvar as almas, que nossas cruzes, por ser fragmento da cruz de Cristo, se fazem redentoras.

Dizia Mons. Lefevbre que Santa Terezinha do Menino Jesus, em seu Carmelo, salvou milhões de almas. Milhões de almas! Salvou milhões de almas sem fazer nada aos olhos do mundo. Como salvou milhões de almas? Pela cruz. Por tomar resolutamente a cruz, como toda alma que ama verdadeiramente a Cristo, e por desejar se crucificar, arrastada pela força invencível do fogo da caridade. Sobre esta grande crucificada, disse São Pio X: “é maior santa dos tempos modernos.” Em vez de nos queixarmos tanto e tão amargamente quando nos compete sofrer, salvemos almas! Existe algo mais nobre que isto? Por isso São Luís Maria Grignion de Montfort disse que nada há tão necessário, tão útil, tão doce, tão glorioso como padecer algo por Cristo. E A Imitação: “Não há coisa mais agradável a Deus, nem para ti mais saudável neste mundo do que sofre de boa vontade por Cristo” (II, cap. 12).
 
Encontramos em São Paulo (Col. 1, 24) estas surpreendentes palavras:  “Eu estou cumprindo em minha carne o que resta para o sofrimento de Cristo por seus corpo místico, que é a Igreja.” Santo Tomás (Sup. Coloss.) explica que não se deve pensar que a Paixão de Cristo foi insuficiente para a redenção e precisa ser completada pelos sofrimentos ou paixões dos cristãos. Tal interpretação seria herética – disse ele – porque o Sangue de Cristo é suficiente para a redenção de infinitos mundos. A verdade é que Cristo e sua Igreja são uma pessoa mística, cuja cabeça é Cristo e cujo corpo é o conjunto dos justos, e Deus dispôs a quantidade de méritos que deve haver em toda a Igreja, tanto na cabeça, quanto em seus membros. Falta que, como Cristo sofreu em seu corpo, assim sofreria em São Paulo e sofre em todos os católicos até o fim dos tempos. Falta que sofra em cada um de nós, faltam nossos sofrimentos, faltam ainda nossas pequenas farpas [fragmentos da cruz] para conformar a Cruz total. Diremos não a Cristo? Que estas farpas nossas sejam parte da Cruz gloriosa. Que não sejam arremessadas pelo vento nem sirvam para acender o fogo.

Sucede com nossos sofrimentos como com a água da chuva. Às vezes chove. Às vezes você tem que sofrer.  Todos, até certo ponto. Um de uma maneira, outro de outra. Se se deixa escorrer a água das chuvas, esta termina no mar, onde se faz amarga e suja, perde-se. Mas se a água é canalizada e represada, serve para regar as plantas e obter os desejados frutos. O sofrimento que não está unido a Nosso Senhor, não serve pra nada, se perde como as águas que escorrem. O sofrimento que aceitamos e unimos a Cristo é, ao contrário, como essas águas retidas e represadas. Que nossas lágrimas não cheguem ao mar, que sejam como essa gota de água que, na Missa, o celebrante mescla com o vinho que será consagrado. Que nossas lágrimas não se percam, senão que – por amor a Nosso Senhor – caiam sempre dentro do cálice, e façam-se Sangue Redentor de Cristo, deem muitos frutos.

Estimados fiéis, “se alguma coisa – disse Kempis – for melhor e mais útil para a salvação dos homens que sofrer, Cristo haveria declarado com sua doutrina e seu exemplo. Porém, manifestamente exorta os seus discípulos, e a todos os que desejam segui-lo, a levar a cruz dizendo : se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me  (II, cap. 12).

Depois de Nosso Senhor, quem mais sofreu na história foi a Mãe de Deus. “A Virgem Santíssima – disse Mons. Lefevbre – sofreu um martírio autêntico por meio da compaixão”, isto é, por sofrer espiritualmente unida a Cristo.” Tenha o desejo de sofrer com Nosso Senhor e com a Santíssima Virgem para a salvação de vossas almas e de todas as almas.”

Recorramos cada dia a Ela mediante o Santo Rosário, o qual começa na Cruz e termina na Cruz, para que por sua intercessão acreditemos na luz infinita que se oculta na momentânea obscuridade do sofrimento dos que amam a Deus.

Verdadeiramente, da cruz tudo depende, e em morrer para si mesmo está tudo.

Tradução: Grupo Dom Bosco

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sermão do XVI Domingo Depois de Pentecostes - Pe. René Trincado

Sendo que 8 de Setembro é a Festa da Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria, lerei então algumas passagens do livro “O Segredo Admirável do Santo Rosário”, de São Luis Maria Grignon de Montfort:

O Rosário completo, com suas 3 coroas, consiste na repetição de Ave-Marias. É uma série de 153 Ave-Marias, mais 16 Padre-Nossos e Glórias. A Santíssima Virgem revelou que é sinal provável de condenação ter negligência, tibieza e aversão à Ave-Maria; e que os que – pelo contrário – sentem devoção a esta oração possuem um grande sinal de predestinação. Todos os hereges, que são filhos do diabo, e que levam os sinais evidentes de condenação, têm horror à Ave-Maria; aprendem o Padre-Nosso, mas não a Ave-Maria e prefeririam levar sobre si uma serpente antes que o Rosário. Entre os católicos, os que levam o sinal da reprovação apenas se interessam no Rosário, são negligentes em rezá-lo ou o rezam com preguiça e precipitadamente.


Pregando São Domingos o Rosário em Carcasona (ao Sul da França, no início do séc. XIII), lhe levaram um herege possesso; o santo o exorcizou na presença de mais de doze mil pessoas. Os demônios que possuíam a este miserável estavam obrigados a responder as perguntas do santo, e confessaram:

Que eram quinze mil demônios os que haviam no corpo do possesso, porque havia atacado os quinze mistérios do Rosário. Que com o Rosário que ele pregava levava o terror e o espanto a todo o inferno (isto é, às hostes infernais), e que era o homem que mais odiavam em todo o mundo por causa das almas que lhes tirava com a devoção ao Rosário.

São Domingos colocou seu Rosário no pescoço do possesso e lhes perguntou a qual dos santos do céu temiam mais e qual devia ser mais amado e honrado pelos homens. A esta pergunta os demônios romperam em gritos tão espantosos que a maior parte dos ouvintes caiu em terra assustados e espantados. Os espíritos malignos, para não responder, choravam e se lamentavam de um modo comovedor que muitos assistentes choravam também por compaixão. Os demônios diziam pela boca do possesso com voz lastimosa: “Domingos! Domingos! Tem piedade de nós! Te prometemos não fazer-lhe mal!”.

O Santo, sem mudar-se por estas sofridas palavras, respondeu aos demônios que não cessaria de atormentá-los até que respondessem a pergunta. Disseram os diabos que responderiam, mas em segredo e ao ouvido. Insistiu o santo, ordenando-lhes que falassem muito alto. Os diabos não quiseram dizer palavra. Então São Domingos ficou de joelhos, e fez à Santíssima Virgem esta oração: “Oh excelentíssima Virgem Maria, pela virtude de teu saltério e Rosário, ordena a estes inimigos do gênero humano que respondam a pergunta”.
Os demônios exclamaram: "Domingos, rogamos-te pela paixão de Jesus Cristo e pelos méritos de tua santa Mãe e de todos os santos, que nos permitas sair deste corpo sem dizer nada, porque os anjos, quando tu quiseres, revelar-te-ão. Nós somos mentirosos. Como acredita em nós? Não nos atormentes mais, tenhas piedade de nós.” Desgraçados são" disse São Domingos, e ajoelhando-se, dirigiu esta nova oração à Santíssima Virgem: “Ó digníssima Mãe de Sabedoria,... peço-vos para a saúde dos fiéis aqui presentes, que obrigueis a esses vossos inimigos a abertamente confessar aqui a verdade completa e honesta."

Apenas havia terminado esta oração, viu perto dele a Santíssima Virgem, rodeada de uma multidão de anjos, que com uma vareta de ouro que tinha na mão, golpeava ao possuído, dizendo-lhe: “responda a pergunta de meu servidor Domingos.”

Então os demônios começaram a gritar, dizendo: “Oh! inimiga nossa! Oh! ruína e confusão nossa! Por que viestes do céu para atormentar-nos de forma tão cruel? Será preciso que por vós, ó advogada dos pecadores, a quem livrais do inferno; ó caminho seguro do céu, sejamos abrigados – para nosso pesar- a confessar diante de todos o que é causa de nossa humilhação e ruína? Ai de nós! Maldição a nossos príncipes das trevas! Ouçam, pois, cristãos! Esta Mãe de Deus é onipotente e pode impedir que seus servos caiam no inferno. Ela, como um sol, dissipa as trevas de nossas astutas maquinações. Descobre nossas intrigas, rompe nossas redes e reduz à inutilidade todas nossas tentações. Vemo-nos obrigados a confessar que ninguém que persevere em seu serviço se condena com nós. Um só suspiro que ela apresente à Santíssima Trindade vale mais que todas as orações, votos e desejos de todos os santos. Temos mais medo dela que de todos os bem-aventurados juntos e nada podemos contra seus fiéis seguidores.

Levem em consideração também que muitos cristãos que A invocam ao morrer e que deveriam se condenar, segundo as leis ordinárias, salvam-se graças à Sua intercessão. Se esta Mariazinha – assim a chamaram em sua fúria – não houvesse oposto aos nossos desígnios e esforços, há tempos teríamos derrubado e destruído a Igreja, e levado ao erro e à infidelidade toda sua hierarquia! Devemos incluir, com maior clareza e precisão – obrigados pela violência que nos fazem – que ninguém que persevere na reza do Rosário se condenará. Por que ela obtém para seus fiéis devotos a verdadeira contrição dos pecados, para que os confessem e alcancem o seu perdão”.

Então São Domingos fez todo o povo rezar o Rosário muito lentamente e devotadamente, e a cada Ave-maria que o santo e o povo rezavam – que coisa surpreendente! – saía do corpo deste desgraçado uma grande multidão de demônios em forma de carvões acesos. Este milagre foi causa da conversão de grande número de hereges, que, aliás, se inscreveram na Confraria do Santo Rosário, como sucedeu com o possesso. 

Termino com outra citação deste grande apóstolo do Rosário que foi São Luís Grignion de Montfort: “eu acredito que você vai receber a coroa que nunca vai definhar, se se você mantiver fiel à reza (do Rosário) devotamente até a morte... Não obstante à enormidade de seus pecados, mesmo que já estivessem  à beira do abismo... converter-se-ão mais cedo ou mais tarde e salvar-se-ão, sempre que, repito, rezarem devotamente, todos os dias até à morte o Santo Rosário com o fim de conhecer a verdade e alcançar a contrição e o perdão de seus pecados.” 

Ave Maria Puríssima.
Tradução: Grupo Dom Bosco

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sermão do XV Domingo Depois de Pentecostes - Pe. René Trincado

Na quinta-feira passada celebramos a Festa da Degolação de São João Batista.

Disse o Evangelho (Mc VI, 17-28) que Herodes mandara prender a João por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Felipe; porque havia a tomado por mulher. Pois João dizia a Herodes: não te é licito ter a mulher de teu irmão.


Se pode aplicar este Evangelho a nosso tempo e dizer que S. João Batista representa a Igreja, cuja missão é dar a Luz de Cristo aos homens para que, vivendo segundo a Fé e a Moral verdadeiras, salvem suas almas. Mas a verdade que é predicada pela Igreja é recusada pelos que pertencem ao diabo. A Luz Divina enfurece aos que querem viver na obscuridade do pecado.

O rei Herodes representa aos prelados liberais, especialmente aos Papas desde João XXIII em diante, porque vivem em adultério espiritual. Cristo chama adúlteros aos que abandonam a Deus, verdadeiro esposo da alma (Catena Áurea in Mc VIII, 38). Toda heresia é, pois, um adultério, porque por ela nos separamos da Verdade que é Cristo. O Modernismo – vertente teológica do liberalismo- é a cloaca de todas as heresias, disse São Pio X, e por ser a pior das heresias, o modernismo ou progressismo é o pior dos adultérios.

Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, não o conseguindo, porém. Pois Herodes respeitava João, sabendo que era um homem justo e santo; protegia-o e, quando o ouvia, sentia-se embaraçado. Mas, mesmo assim, de boa mente o ouvia.

Herodíades, a adultera, é, segundo os antigos interpretes, a religião judia. Mulher orgulhosa, ambiciosa, altiva, arrogante, intrigante, manipuladora e cruel; queria matar a João porque lhe fazia ver que estava em pecado. Em lugar de arrepender-se, de acabar com o que separava sua alma de Deus (o pecado), buscou acabar com o homem santo que tendia a separá-la de Herodes e do diabo.

Chegou, porém, um dia favorável em que Herodes, por ocasião do seu natalício, deu um banquete aos grandes de sua corte, aos seus oficiais e aos principais da Galiléia. A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e dos seus convivas.

Esta segunda mulher, filha de Herodíades e enteada de Herodes, se chamava Salomé. Assim como a Igreja tem uma Mãe Santíssima que é a Virgem Maria, Salomé é a má filha de uma mãe igualmente má. É a heresia atual, que provem de Herodíades, do judaísmo, porque as obscuras origens do modernismo parecem remontar-se até à Cábala Judaica. Salomé é, então, a igreja conciliar, fruto envenenado da sinagoga; a seita dos lobos com pele de ovelha, cujo coração são os infiltrados do diabo: sodomitas, marxistas, maçons, modernistas convencidos e militantes, etc. Salomé, instigada por sua mãe, consegue que S. João seja degolado. De igual modo a igreja conciliar tenta separar do corpo, a massa dos católicos, de Cristo, Cabeça da Igreja. O nome Salomé deriva da palavra hebraica shalom: paz. O covarde pacifismo –vale a redundância- é um dos elementos característicos do liberalismo. Quantas vezes temos ouvido da boca de Papas e bispos liberais esse blasfemo parecer de que a Igreja está a serviço da paz? Paz segundo o mundo, mera ausência de guerras, paz de mortos, paz satânica dos que querem viver tranqüilos sem ser molestados por Deus. A funesta festa na qual Salomé dançou e agradou aos comensais, é o diabólico Vaticano II. Adiante a Hierarquia católica não quererá conquistar o mundo para Cristo, senão agradar ao mundo, mostrar-se simpática com os inimigos de Deus e oferecer-se a eles como a vagabunda Salomé.
 
E o rei enviou um carrasco e ordenou-lhe que trouxesse a cabeça de João. E ele foi; decapitou-o na prisão; trouxe a cabeça num prato e a deu à jovem, e a jovem a deu à sua mãe.

Estimados irmãos: todos os católicos têm na figura de São João Batista um brilhante exemplo de fidelidade a Cristo, desta santa intransigência Católica surgida a partir da verdadeira caridade, o amor ardente da Verdade. Como ele, você tem que querer morrer antes de ceder os princípios, ao invés de amenizar a defesa da verdade, antes de trair Cristo. Não esqueçamos que essa intransigência que Deus espera de nós tem uma recompensa eterna. E tem também a promessa de ser recompensado nesta vida com a Santíssima cruz, como São Paulo nos diz que todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos (II Timóteo III, 12). E Cristo diz: ânimo, eu venci o mundo. (Jo XVI, 33).

E se...  à maneira do homem moderno, infectados com o liberalismo, João tentasse chegar a um acordo com Herodíade ou com Herodes? E se...  a fim de evitar o agravamento do conflito, destacasse mais as coisas boas que fez Herodes do que os pecados deste? E se...  formulasse certas condições para a paz, sendo a primeira delas,  ser tirado da prisão e continuar falando livremente? Bem, se tivesse feito algo disso, teria sido infiel a Cristo, teria sido um traidor e um covarde, teria sido outro Herodes e outro Judas. São João Batista não pediu nada a Herodes porque a verdade não pede nada ao erro, nem a luz às trevas, nem Cristo à Belial. A única coisa que faria possível a paz com Herodes e Herodíades teria sido o cumprimento deste, e só deste requisito: que acabe o adultério, que termine o pecado. Isso, exatamente, foi a condição que, fiel à linha traçada por Mons. Lefebvre -novo João Batista-, havia posto à Roma adúltera o capítulo da Fraternidade desde o ano 2006: nenhum acordo sem a prévia conversão de Roma, sem o fim do adultério liberal e modernista.

Por ser intransigente, São João morreu preso por Herodes e, por ser intransigente, Mons. Lefebvre morreu "excomungado" pelos filhos de Herodes. E agora? Hoje, vemos com pesar que as crianças do Mons. Lefebvre não foram mantidas no santo caminho de seu pai, mas arrastado por uma autoridade hesitante, confusa e ambígua como Herodes, escolheram o caminho rastejante, tímidos e pusilânimes.

Esta é a vossa hora e o poder das trevas (Lc XXII, 53): Os muito lamentáveis acontecimentos do que temos testemunhado durante a última época, mostram que a FSSPX está tendo cada vez mais de Herodes, Herodiades e Salomé, e menos de Mons. Lefebvre, São João Batista e Cristo.

Ave Maria Puríssima.
 Tradução: Grupo Dom Bosco