Assoc. Fronteira Católica

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Curso online de Filosofia Tomista - Inscrevam-se!

Por uma Filosofia Tomista
Curso on-line de 60 horas ministrado por
Carlos Nougué

 “A felicidade última do homem está na contemplação da Verdade.”
Santo Tomás de Aquino
[Comunicado 1]
Em meados de outubro deste ano, estará disponível em site próprio o Curso on-line Por uma Filosofia Tomista, de 60 horas (o equivalente a um curso de extensão universitária).

DADOS GERAIS DO CURSO

1) O Curso se dividirá em 30 vídeos-aula de 2 horas cada uma.
2) Todos os vídeos-aula estarão gravados antes do início do Curso, mas só se postarão no site dois por semana, por óbvias razões didáticas. Permanecerão todos no site até cinco meses depois do início do Curso. (Informar-se-á oportunamente o endereço do site.)
3) Haverá, ademais, ao longo dos mesmos cinco meses, vídeos-aula extras, de duração variada, com a resolução das dúvidas enviadas pelos alunos ao e-mail cursos@carlosnougue.com.br. (É também a este e-mail que se deve escrever para solucionar quaisquer outras dúvidas relativas ao Curso. Neste caso, responderá nosso responsável operacional: Marcel Assunção Barboza.)
4) Os vídeos estarão em nosso site em duas versões: uma de alta resolução; a outra de resolução um pouco inferior, para os alunos cujo computador não suporte a primeira.  
5) Na seção Material de Estudos do site, fornecer-se-ão também textos, outros vídeos e bibliografia.  
6) O Curso fornecerá certificado (particular) ao fim dos cinco meses.

EMENTA DO CURSO

I) Apresentação geral: A necessidade de uma Filosofia tomista.
II) Preâmbulo 1: Resumo da História da Filosofia – Do impulso grego ao abismo moderno.
III) Preâmbulo 2: Se Santo Tomás era filósofo e/ou teólogo.
IV) Preâmbulo 3: A essência da doutrina de Santo Tomás, ou se o tomismo é um aristotelismo.
V) Preâmbulo 4: Como estudar a Filosofia, e em ordem a quê.
VI) Introdução geral à Filosofia, ou seja, a seus conceitos elementares (já aqui se implicam noções da Lógica, da Física e da Metafísica):
1) O que é conhecer 2) O ente e os primeiros princípios; 3) A quididade das coisas; 4) O essencial e o acidental; 5) Substância e acidentes; 6) A questão do an sit; 7) Ente e esse (ser ou ato de ser); esse e existência – uma primeira aproximação; 8) Divisão e definição; 9) Se os acidentes são entes e têm quididade; 10) Se as coisas artificiais têm quididade.
VII) Introdução à Lógica:
1) A simples apreensão; 2) As propriedades das coisas; 3) O juízo ou composição; 4) As causas; 5) O silogismo; 6) Em defesa da Lógica; 7) Se a Lógica é arte ou ciência; 8) As propriedades da Lógica; 9) O método da Lógica; 10) Lógica e Gramática.
VIII) Intermédio: A ordem das ciências e das artes.
IX) Introdução à Física geral:
1) O que é a natureza; 2) Os princípios da natureza: ato e potência, etc.; 3) O sujeito da Física Geral; 4) Existência e esse – segunda aproximação; 5) Em defesa da Física Geral aristotélico-tomista; 6) Se e em que caducou esta ciência; 7) O método da Física Geral; 8) Que classe de ciência é a Física moderna; 9) O que pensar da Biologia, da Psicologia, etc., atuais; 10) Uma crítica a Jacques Maritain.
X) Introdução à Metafísica:
1) Se tal ciência existe ou é válida ou necessária; 2) O sujeito da Metafísica; 3) Ente e esse – segunda aproximação; 4) As propriedades da Metafísica; 5) O método da Metafísica; 6) Diferença entre Teologia (ou Metafísica) e Sacra Teologia, e se elas se opõem; 7) As provas da existência de Deus; 8) O tratado de Deus uno.
XI) Apêndices:                                                                               
1) Os transcendentais; 2) Se o mal é algo; 3) A alma humana e sua imortalidade; 4) A Política e sua ordem ao Fim último do homem; 5) O mundo poderia ter sido criado ab aeterno (desde a eternidade)?

CURRÍCULO DE CARLOS NOUGUÉ

I) Dados pessoais:
Nome: Carlos (Augusto Ancêde) Nougué;
Nacionalidade: brasileira;
Idade: 61 anos.
II) Qualificações profissionais:
1) Professor de Filosofia por diversos lugares;
2) Professor de Tradução e de Língua Portuguesa em nível de Pós-graduação (UGF);
3) Tradutor de Filosofia, Teologia e Literatura (do francês, do latim, do espanhol e do inglês);
4) Lexicógrafo.
III) Prêmio e indicações para prêmio:
• Prêmio Jabuti de Tradução/1993;
Indicação ao Prêmio Jabuti/1998;
• Finalista do Prêmio Jabuti/2005 pela tradução de D. Quixote da Mancha, de Miguel de Cervantes (edição oficial do Quarto Centenário da edição princeps).
IV) Responsável pelos seguintes blogs:

SUBSCRIÇÃO PARA O CURSO

1) Valor total:
a) ou R$ 300,00 em até 6 parcelas sem juros no cartão de crédito;
b) ou R$ 280,16 por pagamento à vista mediante débito on-line ou boleto bancário.
Observação: Ambas as formas de pagamento se farão, em nosso próprio site, mediante o PagSeguro.
2) Ao pagarem, os alunos-subscritores receberão automaticamente uma senha de acesso aos vídeos-aula (regulares e extras) e ao material de estudo.
3) O período de subscrição começará entre três a duas semanas antes do início do Curso.
Observação geral 1: Até o fim de setembro próximo, informar-se-á a data efetiva do início do Curso.
Observação geral 2: Até o início do Curso, enviar-se-á semanalmente novo comunicado à mesma mailing list.

*  *  *

> Veja-se o Vídeo de Apresentação do Curso (http://youtu.be/0IETeM0vu0c).

___________
Uma iniciativa conjunta

Central de Cursos Contemplatio

Associação Cultural Santo Tomás

Carta Aberta ao Papa: o perigo do Islã

Carta aberta ao Papa Francisco sobre sua Mensagem aos muçulmanos por ocasião do encerramento do Ramadã

Santíssimo Padre,

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo que Vos confiou a missão de conduzir a Igreja!


Permiti-me, em nome de numerosas pessoas chocadas pela vossa carta aos muçulmanos por ocasião do Id al-Fitr [1] e em virtude do cânon 212 § 3 [2], comunicar-vos as reflexões desta Carta aberta.


Saudando com “um grande prazer” os muçulmanos por ocasião do ramadã, o qual é considerado um tempo consagrado “ao jejum, à oração e à esmola”, Vós pareceis ignorar que o jejum do ramadã é tal, que “a cesta média de uma família que faz o ramadã aumenta 30%” [3], que a esmola muçulmana se destina somente aos muçulmanos necessitados, e que a prece muçulmana consiste principalmente em rejeitar cinco vezes por dia a Fé na Trindade e em Jesus Cristo, a pedir o favor de não seguir o caminho dos transviados que são os cristãos... Ademais, durante o ramadã, a delinquência aumenta de modo vertiginoso [4]. Há realmente nessas práticas algum motivo de elogio possível?

Vossa carta afirma que devemos ter estima pelos muçulmanos, e “especialmente pelos seus chefes religiosos”, mas não dizeis a que título. Uma vez que Vos dirigis a eles enquanto muçulmanos, segue-se daí que essa estima se dirige também ao Islã. Ora, o que é para um cristão o Islã que “nega o Pai e o Filho” (1 João 2.22), senão um dos mais poderosos Anticristos, em número e em violência (Ap 20, 7-10)? Como se pode ter ao mesmo tempo estima por Jesus Cristo e por aquele que se Lhe opõe?

Vossa mensagem nota em seguida que “as dimensões da família e da sociedade são particularmente importantes para os muçulmanos nesse período” de ramadã, mas o que não está dito é que o ramadã serve de formidável meio de condicionamento social, opressão e denúncia dos insubmissos ao totalitarismo islâmico, em suma, da negação total do respeito que Vós evocais... Assim, o artigo 222 do Código Penal marroquino estipula: “Aquele que, notadamente conhecido por sua pertencença à religião muçulmana, rompe ostensivamente o jejum num lugar público durante o tempo do Ramadã, sem motivo admitido por esta religião, é punido com a prisão de um a seis meses e a uma multa”. E trata-se apenas do Marrocos...

Que “paralelos” Vós poderíeis encontrar entre “as dimensões da família e da sociedade muçulmana” e “a fé e a prática cristãs” quando o estatuto da família muçulmana inclui a poligamia (Corão 4.3 ; 33.49-52,59), o repúdio (Corão 2.230), a inferioridade ontológica e jurídica da mulher (Corão 4.38; 2.282; 4.11), o dever do marido de bater nela a seu bel-prazer (Corão 4.34), etc.? Que paralelo pode haver entre a sociedade muçulmana, construída para a glória do Único, e que por isso não pode tolerar a alteridade nem a liberdade, nem tampouco, em consequência, distinguir os domínios religioso e espiritual – “Entre nós e vós, são a inimizade e o ódio para sempre, até que creiais somente em Alá!” (Corão, 60.4) – e a sociedade cristã que, porquanto construída para a glória do Deus Uno e Trino, valoriza o respeito às legítimas diferenças? Dever-se-ia então entender por “paralelo” não aquilo que se assemelha e, portanto, converge para um ponto comum, mas aquilo que, pelo contrário, nunca se reúne? Em tal caso, ajuda esse equívoco a clareza de vossa declaração? 

Vós propondes aos vossos interlocutores refletir sobre “a promoção do respeito mútuo através da educação”, deixando crer que eles partilham convosco dos mesmos valores humanitários de “respeito mútuo”. Mas tal não é o caso. Para um muçulmano, não existe natureza humana à qual se referir, nem bem conhecível pela razão: o homem e seu bem são somente aquilo que o Corão afirma. Ora, ele ensina aos muçulmanos que os cristãos principalmente, por serem cristãos, “não são senão impureza” (Corão 9.28), os “piores da criação” (Corão 98.6), “mais vis que os animais” (Corão 8.22; cf. 8.55) [5]...

Por acharem ser o Islã a verdadeira religião (Corão 2.208 ; 3.19,85) que deve dominar todas as demais até erradicá-las completamente (Corão, 2.193), os não muçulmanos só podem ser perversos e malditos (Corão 3.10, 82, 110 ; 4.48, 56, 76, 91 ; 7.144 ; 9.17,34 ; 11.14 ; 13.15,33 ; 14.30 ; 16.28-9 ; 18.103-6 ; 21.98 ; 22.19-22,55; 25.21 ; 33.64 ; 40.63 ; 48.13), aos quais os muçulmanos devem combater sem cessar (Corão 61.4,10-2 ; 8.40 ; 2.193) pelo ardil, (Corão 3.54 ; 4.142 ; 8.30 ; 86.16), pelo terror (Corão 3.151 ; 8.12,60 ; 33.26 ; 59.2) e por todas sorte de castigos (Corão 5.33 ; 8.65 ; 9.9,29,123 ; 25.77) como a decapitação (Corão 8.12 ; 47.4) ou a crucifixão (Corão 5.33), com vistas a eliminá-los (Corão 2.193 ; 8.39 ; 9.5,111,123 ; 47.4), e aniquilar definitivamente (Corão 2.191 ; 4.89,91 ; 6.45; 9.5,30,36,73 ; 33.60-2 ; 66.9). “Ó vós que credes! Combatei até à morte os incrédulos que estão perto de vós, e que eles encontrem em vós a rudeza...” (Corão 9.30 ; cf. 3.151 ; 4.48)…

Santíssimo Padre, ao se dirigir aos muçulmanos pode-se esquecer que eles seriam incapazes de se aventurar fora do que está estipulado no Corão?

Vossos apelos “a respeitar em cada pessoa, [...] primeiro sua vida, sua integridade física, sua dignidade com os direitos que dela decorrem, sua reputação, seu patrimônio, sua identidade étnica e cultural, suas ideias e suas preferências políticas” não seriam capazes de suavizar as imutáveis disposições dadas por Alá, algumas das quais acabo de enumerar. Mas se é preciso respeitar de outrem “suas ideias e suas preferências políticas”, como se opor então à lapidação, à amputação e a toda sorte de outras práticas abomináveis ordenadas pela sharia?

Vosso arrazoado não pode comover os muçulmanos: eles não têm lições para receber de nós, que não somos “senão impureza” (Corão 9.28). E se eles Vos felicitam apesar disso, como o fizeram os da Itália, é porque a política da Santa Sé serve enormemente aos seus interesses, por fazer a religião deles passar como respeitável aos olhos do mundo, fazendo crer que ela os leva a apreciar os valores universais que Vós preconizais... Eles Vos felicitarão enquanto estiverem, como na Itália, em situação minoritária. Mas quando não mais for assim, acontecerá o que sucede em todos os lugares onde eles são majoritários: todo grupo não muçulmano deve desaparecer (Corão 9.14; 47.4; 61.4; etc.), ou pagar a jyzaia para adquirir o direito de sobreviver (Corão 9.29). Vós não podeis ignorá-lo; mas, então, como podeis, ocultando isso aos olhos do mundo, favorecer a expansão do Islã junto aos inocentes ou ingênuos assim enganados? Considerais porventura os cumprimentos que Vos foram dirigidos como penhor da fecundidade de vossa atitude? Vós ignoraríeis então o princípio da takyia, que ordena a apertar a mão que o muçulmano não pode cortar (Corão 3.28; 16.106).

Mas do que valem no fundo tais trocas de polidez? São Paulo não dizia: “Se eu procurasse agradar aos homens, eu não seria mais o servidor de Cristo” (Gal 1.10)? Jesus denunciou como malditos aqueles que são objeto dos louvores de todos (Lc 6.26). Mas se até vossos inimigos naturais Vos louvam, quem não Vos louvará? A missão da Igreja é de ensinar as boas maneiras de se viver em sociedade? São João Batista teria sido morto caso se contentasse em desejar uma bela festa a Herodes? Dir-se-á talvez não existir comparação possível com Herodes, porque este vivia no pecado e estava no dever de um profeta denunciar o pecado. Mas se todo cristão se tornou um profeta no dia se seu batismo e se o pecado é não crer em Jesus, Filho de Deus Salvador (Jo 16.9) – do que se glorifica precisamente o Islã –, como poderia um cristão não denunciar o pecado que é o Islã e apelar à conversão “em tempo e contra o tempo” (2 Tim, 4.2)?

Uma vez que a razão de ser do Islã é substituir o Cristianismo – o qual teria pervertido a revelação do puro monoteísmo pela fé na Santíssima Trindade, de sorte que Jesus não seria Deus, não teria morrido nem ressuscitado, não haveria Redenção e Sua obra seria assim reduzida ao nada –, como não denunciar o Islã como sendo o Impostor anunciado (Mt 24.4, 11, 24) e o predador por excelência da Igreja? Ao invés de caçar o lobo, a diplomacia vaticana dá a impressão de preferir alimentá-lo com suas lisonjas, não vendo que ele espera apenas crescer suficientemente para fazer aquilo que faz em todos os lugares onde ele se torna forte e vigoroso. Seria preciso lembrar o martírio vivido pelos cristãos no Egito, no Paquistão e onde quer o Islã esteja no poder?

Como poderá a Santa Sé assumir a responsabilidade de afiançar o Islã apresentando-o como um cordeiro quando ele é um lobo disfarçado de ovelha? Em Akita, a Virgem Maria nos preveniu: “O demônio se introduzirá na Igreja porque ela estará cheia daqueles que aceitam os compromissos.”

Santíssimo Padre, como pode vossa carta afirmar que “principalmente entre cristãos e muçulmanos, o que somos chamados a respeitar é a religião do outro, seus ensinamentos, seus símbolos e seus valores”? Como se pode respeitar o Islã, que blasfema continuamente contra a Santíssima Trindade e Nosso Senhor Jesus Cristo, que acusa a Igreja de ter falsificado o Evangelho e que procura suplantá-la (Apoc 12.4)? Porventura não se comportaram como bons cristãos um Santo Irineu, que escreveu Contra as heresias; um São João Damasceno que escreveu Das heresias, onde ele ressalta “muitos absurdos tão risíveis relatados no Corão”; um São Tomás de Aquino com sua Suma contra os Gentios, e todos os Santos que se dedicaram a criticar as falsas religiões, para que Vós condeneis hoje retrospectivamente sua ação, como também a de alguns raros apologistas contemporâneos? Deveria ser excluído o tema religioso do campo da cooperação entre a razão e a fé, tão encorajada por Bento XVI?

Se o apelo formulado em vossa carta for seguido, Santo Padre, seria então preciso, juntamente com a Organização da Cooperação Islâmica (OCI) [6], pedir a condenação em todas as partes do mundo de qualquer crítica ao Islã, e cooperar assim com a OCI para a disseminação deste – ele que ensina, repito, que estando o Cristianismo corrompido, o Islã vem substituí-lo... Por que querer amordaçar a apologética cristã, como deseja a OCI?
 
É evidente que não se semeia entre espinhos (Mt 13.2-9), mas começa-se por arrancá-los antes de semear. Por isso, não se pode simplesmente anunciar a Boa Nova da salvação a uma alma muçulmana, porque desde a mais tenra infância ela está vacinada, imunizada contra a Fé cristã (Corão 5.72; 9.113; 98.6...) e coberta de preconceitos, calúnias e toda sorte de falsidades a respeito do Cristianismo. Portanto, cumpre necessariamente começar por criticar o Islã, “seus ensinamentos, seus símbolos e seus valores”, para desmontar nessa alma as falsas convicções que a tornam inimiga do Cristianismo. São Paulo pede que se utilizem não apenas “as armas defensivas da justiça”, mas também “as armas ofensivas” (2 Cor 6.7). Onde estão estas últimas na vida da Igreja de hoje?

Oh, certamente, associar-se à alegria de uma simpática população ignorante da Vontade de Deus e desejar-lhe um bom ramadã não parece ser uma coisa má em si; era o que achava São Pedro quando foi legitimando os costumes judeus... com medo já então dos protomuçulmanos, que eram os judeus nazarenos! Mas São Paulo o corrigiu publicamente, mostrando-lhe que havia coisa mais importante a fazer do que procurar agradar os falsos irmãos (Gal 2.4, 11-14; 2 Cor 11.26; Corão 2.193; 60.4; etc.). Se São Paulo teve razão, como negar que se deve criticar “a religião do outro, seus ensinamentos, seus símbolos e seus valores”?

Evitando qualquer crítica ao Islã, vossa carta justifica especialmente os bispos que vão colocar a primeira pedra das novas mesquitas, o que também eles fazem por cortesia, com a intenção de agradar a todo mundo e favorecer a paz civil. Quando amanhã seus fieis se tornarem muçulmanos, estes últimos poderão dizer que o fizeram por causa de seus bispos, que ao invés de os proteger lhes indicaram o caminho da mesquita... E poderão também dizer a mesma coisa a respeito da Santa Sé, porquanto ela lhes terá ensinado a não considerar o Islã como ele é verdadeiramente, mas a honrá-lo como bom e respeitável em si...

Vossa carta justifica vossos votos de boas-festas de ramadã, afirmando: “É claro que, quando demonstramos respeito pela religião do outro ou quando lhes oferecemos nossos votos por ocasião de uma festa religiosa, nós procuramos simplesmente compartilhar sua alegria, sem que se trate com isso de fazer referência ao conteúdo de suas convicções religiosas.” – Como se alegrar com uma alegria que glorifica o Islã? A atitude que Vós preconizais, Santíssimo Padre, está de acordo com o mandamento de Jesus: “Que a vossa linguagem seja ‘Sim, sim’; Não, não’: o que se disser a mais provém do maligno” (Mt 5.37)? E ainda que se pudesse crer que desejando um bom ramadã não se peca – em razão de uma restrição mental que pretende negar o vínculo entre o ramadã e o Islã, o que mostra bem que tal comportamento é problemático –, está isso de acordo com a caridade pastoral, segundo a qual um pastor deve se preocupar pelo modo como seu gesto é interpretado pelos seus interlocutores?

Com efeito, ao nos ouvirem lhes desejar um bom ramadã, o que poderão pensar os muçulmanos? De duas uma: ou que somos uns idiotas incompreensivelmente obtusos, malditos por certo por Alá, pelo fato de não nos tornarmos muçulmanos – uma vez que nossos augúrios lhes dão a entender que a religião deles não apenas é boa, pois capaz de lhes dar a alegria que lhes desejamos, mas também superior ao Cristianismo, porque posterior a este –, ou então que somos uns hipócritas que não ousamos lhes dizer na face o que pensamos de sua religião, o que equivaleria a reconhecer que temos medo deles e que eles já se tornaram nossos senhores. Vendo-nos raciocinar como muçulmanos, poderão eles dar outra interpretação ao nosso gesto?

Inúmeros muçulmanos já me comunicaram seu contentamento pelo fato de Vós honrardes a religião deles. Como poderão eles se converter um dia se a Igreja os encoraja a praticar o Islã? Como pensa a Santa Sé anunciar-lhes a falsidade do Islã e o dever que eles têm de abandoná-lo para se salvarem recebendo o santo Batismo? Não está ela favorecendo o relativismo religioso – para o qual pouco importa o que diferencia as religiões, porque o único que conta é a bondade do homem, que o salva independente de sua religião?

Os primeiros cristãos se recusaram a participar das cerimônias civis do Império Romano, que consistiam em fazer queimar um pouco de incenso diante de uma estátua do imperador – rito, entretanto, louvável na aparência, pois que supostamente favorecia a coexistência e a unidade das populações tão diversas e das religiões tão numerosas do imenso Império Romano. Os primeiros cristãos, para os quais a pregação do senhorio único de Jesus era mais importante do que qualquer realidade deste mundo, por mais que ela fosse da estima de seus concidadãos, preferiam assinar com seu sangue a originalidade da mensagem cristã. 

É bem verdade que nós amamos ao nosso próximo – quem quer que seja ele, inclusive muçulmano – por ser membro da espécie humana como nós, querido e amado por Deus desde toda a eternidade, resgatado pelo Sangue do Cordeiro sem mancha. Jesus nos ensinou, porém, a negar todo vínculo humano oposto ao Seu amor (Mt 12.46-50; 23.31; Lc 9.59-62; 14.26; Jo 10.34; 15; 25). Assim sendo, em nome de que fraternidade se poderia chamar os muçulmanos de “nossos irmãos” (cf. vossa alocução de 29-03-2013)? Haveria, por acaso, uma fraternidade que transcenderia todos os engajamentos humanos – inclusive a comunhão com Cristo, rejeitada pelo Islã –, fraternidade essa que seria, em definitiva, a única a ter importância? Não, a vontade de Deus, que é de crermos em Cristo (Jo 6.29), faz com que “não conheçamos mais ninguém segundo a carne” (2 Cor 5.16).

A diplomacia vaticana pensa porventura que silenciando sobre a realidade do Islã ela poupará a vida dos infelizes cristãos nos países muçulmanos? Não, o Islã continuará a persegui-los (Jo 16.2), quanto mais ao perceber que ninguém se opõe aos seus desígnios e porque tal é a sua razão de ser (Corão, 9.30). Não esperam esses cristãos – como todos os demais cristãos – senão que Vós lhes recordeis que ser perseguido por causa de Seu Nome (Mt 16.24; Mc 13.13; Jo 15.20) é a partilha de todo discípulo de Cristo aqui na terra, e uma graça insigne digna de júbilo? Jesus mandou nada temer dos tormentos da perseguição (Lc 12.4), e aos nossos irmãos perseguidos por causa da Fé de se alegrarem pela oitava Bem-aventurança (Mt 5.11-12).

Não é essa alegria o melhor testemunho a ser dado? Que outro melhor serviço prestar aos militantes muçulmanos que não temem morrer – de tal modo estão seguros de que vão gozar dos Houris que Alá lhes promete pelo preço de seus crimes – do que lhes mostrar que os cristãos se ufanam em dar suas vidas por puro amor de Deus e pela salvação de seu próximo? Vossa carta evoca o testemunho de São Francisco, mas não diz que ele enviou frades franciscanos para evangelizar os muçulmanos do Marrocos, sabendo que os mesmos seriam ali muito provavelmente martirizados, como de fato aconteceu, e que ele mesmo empreendeu a tarefa de evangelizar o sultão Al Malik Al Kamil [7]. A verdadeira caridade denuncia a mentira e convida à conversão.

Santíssimo Padre, nós temos dificuldade em encontrar na vossa Mensagem aos muçulmanos o eco da caridade de São Paulo ordenando: “Não vos atreleis de modo disparatado aos infiéis. Com efeito, que relação há entre a justiça e a impiedade? Que união entre a luz e as trevas? Que acordo entre Cristo e Belial? Que associação entre o fiel e o infiel?” (2 Co 6.14-15); ou aquela do doce São João, de não acolher entre nós quem quer rejeite a Fé católica, de nem sequer cumprimentá-lo, sob pena de participar de “suas más obras” (2 Jo 7-11)... Saudar os muçulmanos por ocasião do ramadã não é participar de suas más obras? Quem odeia hoje até a sua túnica (Jud 23)? Por acaso, a doutrina dos Apóstolos não é mais atual? [...].

Padre Guy Pagès

[1] http://www.vatican.va/holy_father/francesco/messages/pont-messages/2013/documents/papa-francesco_20130710_musulmani-ramadan_fr.html
[2] “Segundo o saber, a competência e o prestígio de que eles gozam, eles têm o direito e mesmo às vezes o dever de dar aos Pastores sagrados sua opinião sobre aquilo que diz respeito ao bem da Igreja e de fazê-la conhecer aos outros fieis, ressalvadas a integridade da fé e dos costumes e a reverência devida aos pastores, e tendo-se em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas” (Cânon 212 § 3).
[3] http://www.leconomiste.com/article/897050-ramadan-dope-la-demande
[4] http://francaisdefrance.wordpress.com/2013/07/22/ratp-et-ramadan/
[5] “... ao mesmo título que o excremento, a urina, o cão e o vinho”, precisa o aiatolá Khomeini, em Principes politiques, philosophique, sociaux et religieux, Éditions Libres Hallier, Paris, 1979.
[6] http://ripostelaique.com/tandis-qualexandre-delvalle-denonce-loci-laurent-fabius-se-prosterne-devant-ses-representants.html
http://www.libertiesalliance.org/brusselsconference/icla-proceedings-brussels-2012/
[7] http://www.eleves.ens.fr/aumonerie/numeros_en_ligne/careme02/seneve008.html

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A amplitude de nossa vontade e seu Fim último

Se São Tomás diz que em certos homens - o avarento, a exemplo - a concupiscência das riquezas é infinita (1), que dizer então do desejo da vontade espiritual? Quanto mais elevado for o conhecimento dos bens espirituais superiores e do bem supremo, mais aumentará este desejo espiritual; e a fé cristã diz-nos que só Deus visto face a face a pode encher. Portanto, a nossa vontade, em certo sentido, é verdadeiramente de uma grandeza sem limites.

Por isso a bem-aventurança ou verdadeira felicidade, que o homem já deseja naturalmente não pode encontrar-se em nenhum bem limitado ou restrito, mas unicamente em Deus, conhecido pelo menos naturalmente e amado efetivamente acima de tudo. São Tomás (2) demonstra que a beatitude do homem, pelo facto de este conceber o bem universal, não pode consistir nas riquezas, nem nas honras, nem na glória, nem no poder, nem em qualquer outro bem do corpo ou bem infinito, da alma, como a virtude, nem em nenhum bem limitado. E o argumento com que prova a sua afirmação baseia-se na própria natureza da nossa inteligência e da nossa vontade (3). Quando julgamos ter encontrado a felicidade no conhecimento duma ciência ou na amizade duma pessoa nobre, depressa nos apercebemos de que é um bem limitado, o que fazia dizer a Santa Catarina de Sena: «Se quiserdes que uma amizade dure, se quiserdes saciar-vos por muito tempo com este copo, deixai que ele se encha sempre na fonte de água viva; doutro modo, ele deixará de poder corresponder à vossa sede».

Com efeito, é impossível que o homem encontre a verdadeira felicidade, que deseja naturalmente, em qualquer bem limitado, porque a sua inteligência, verificando imediatamente o limite, concebe um bem superior e, naturalmente, esse bem é desejado pela vontade.

Se nos fosse concedido ver um anjo, vê-lo imediatamente, na sua beleza supra-sensível, puramente espiritual, a principio ficaríamos maravilhados; mas a nossa inteligência, que concebe o bem universal, não tardaria a dizer-nos: isto ainda não passa de um bem finito e, portanto, muito pobre em comparação com o Bem por essência, sem limites e sem mistura de imperfeição.

Mesmo a soma de todos os bens finitos, misturados com imperfeição, nunca pode constituir o Bem por essência que concebemos e desejamos, assim como uma multidão inumerável de idiotas jamais pode equiparar-se a um homem de gênio.

Na esteira de São Gregório Magno, São Tomás notou a este respeito: os bens espirituais são apetecíveis quando não se possuem; mas, quando se possuem, vê-se a sua pobreza que não pode corresponder ao nosso desejo, e daí a desilusão, o tédio e por vezes o desgosto. Com os bens espirituais sucede o contrário: não são desejados por aqueles que não os possuem e desejam sobretudo os bens sensíveis; mas, quanto mais se possuem mais se conhece o seu valor e mais se amam (4). Pela mesma razão, enquanto os mesmos bens materiais (a mesma casa e o mesmo, campo) não podem pertencer simultânea e integralmente a várias pessoas, os mesmos bens espirituais (a mesma verdade, a mesma virtude) podem pertencer simultânea e plenamente a todos; cada um possui-os tanto mais quanto mais os comunica aos outros (5). Isto é verdade, sobretudo, tratando-se do Bem Supremo.

É forçoso que exista este Bem infinito, o único que corresponde à nossa aspiração; doutro modo, a amplitude universal da nossa vontade seria um absurdo psicológico, uma coisa radicalmente ininteligível, sem razão de ser.

Se Deus nos tivesse criado num estado puramente natural, sem a graça, o nosso fim último seria conhecê-lo naturalmente pelo reflexo das suas perfeições nas criaturas e amá-lo efetivamente acima de tudo.

Mas, gratuitamente, ele chama-nos a conhecê-lo duma forma sobrenatural, pela visão imediata da sua divina essência, a conhecê-lo como Ele se conhece e a amá-lo sobrenaturalmente como Ele se ama, por toda a eternidade. Na outra vida sentiremos que só Deus, visto face a face, pode preencher o profundo vazio do nosso coração, que só Ele pode preencher as profundezas da nossa vontade.

O Homem e a Eternidade
Pe. Garrigou-Lagrange
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1. I, II q. 30, a. 4.
2. I, 11 q. 2, a. 8.
3. l, lI, q. 2, a. 8: «É impossível que a bem-aventurança do homem consista em qualquer bem criado. Com efeito, a bem-aventurança é um bem perfeito, que satisfaz totalmente o apetite; doutro modo, não seria o fim último, uma vez que ainda restava alguma coisa apetecível. Porém, o objecto da vontade que é o apetite, é o bem universal, assim como o objecto da inteligência é a verdade universal. Estamos, pois, a ver que nada pode satisfazer a vontade do homem a não ser o bem universal. E este não se encontra em nenhum bem criado, mas somente em Deus, porque a bondade de toda a criatura é particular. Conclui-se, pois, que só Deus pode satisfazer a vontade humana.».
4. I, lI, q. 31, a. 5; q. 32"a.2; q. 33, a. 2.
5. II, q., 28, a. 4, 2 m;llI, q. 23, a. I, ad. 3.

Visão da Resistência

Algumas almas católicas que hoje mantêm a fé católica estão temendo pela direção que vem sendo tomada pela liderança da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, e como elas apreciam o quanto vinham recebendo da Fraternidade nas últimas décadas, elas desesperadamente optaram por uma nova Fraternidade substituta. Elas temem que a diferente visão de uma rede de pequenos grupos de resistência seja o seu futuro, mas podem ser tranquilizadas ao saberem que foi essa a visão de um proeminente profeta e pioneiro do movimento Tradicional, o padre dominicano francês Roger-Thomas Calmel (1914-1975). Aqui está uma página, livremente traduzida e adaptada do francês, de sua “Breve Apologia para a Igreja de todos os Tempos (pp. 48-51): --

“Por mais loucamente que possa se portar a hierarquia católica, padres não podem tomar o lugar dos bispos, e nem podem os leigos tomar o lugar dos padres. Estamos nós então pensando em criar uma liga ou associação mundial de padres e leigos cristãos para entrar no diálogo com a hierarquia e forçá-la a restaurar a ordem católica? É uma grande e tocante ideia, mas ela é irreal. Isso porque nenhum grupo que queira ser um grupo da Igreja, mas sem ser uma diocese, ou uma arquidiocese e nem uma paróquia e nem uma ordem religiosa, se encontrará sob alguma das categorias sobre as quais e pelas quais a autoridade é exercida na Igreja. Irá ser um grupo artificial, um artefato desconhecido para qualquer dos grupos reais da Igreja que são estabelecidos e reconhecidos como tais.

Assim, como com qualquer agrupamento de homens, os problemas de liderança e autoridade irão surgir, e quanto maior o grupo, mais acentuados serão. Infalivelmente irá se cair nisto: por ser uma associação, o grupo deve resolver o problema da autoridade; por ser artificial (não ser nenhum tipo de grupo natural ou sobrenatural), ele não pode resolver o problema da autoridade. Surgirão rapidamente subgrupos rivais, a guerra será inevitável, e não haverá meios canônicos para terminá-la ou travá-la.

Estamos então condenados a não poder fazer nada no meio do caos, um caos frequentemente sacrílego? Eu não penso assim. Em primeiro lugar, a indefectibilidade da Igreja garante que até o fim do mundo haverá pessoal suficiente compondo uma genuína hierarquia a manter os sacramentos, especialmente a Eucaristia e as Sagradas Ordenações, e a pregar a única e imutável doutrina da Salvação. E em segundo lugar, quaisquer que sejam as falhas da real hierarquia, todos nós, padres e leigos, temos nossa pequena parcela de autoridade.

Portanto, que o padre apto a pregar vá aos limites de seu poder de pregar, absolva pecados e celebre a verdadeira Missa. Que a Irmã que educa vá aos limites de sua graça e poder para formar moças na fé, na boa moral, na pureza e na literatura. Que cada padre e leigo, cada pequeno grupo de leigos e padres, que tenha autoridade e poder sobre um pequeno forte da Igreja e da Cristandade, vá aos limites de suas possibilidades e poderes. Que os líderes e ocupantes de tais fortes se conheçam e mantenham contato uns com os outros. Que cada um dos fortes protegidos, defendidos, treinados e dirigidos em suas orações e cantos por uma autoridade real se torne, tanto quanto possível, uma fortaleza de santidade. É isso que irá garantir a continuação da verdadeira Igreja e irá preparar eficazmente sua renovação no bom tempo de Deus.

Então nós não precisamos ter medo, mas orar com toda confiança e exercer sem medo, na esfera que é nossa, de acordo com a Tradição, o poder que nós temos, preparando assim o feliz tempo em que Roma voltará a ser Roma e os bispos voltarão a ser bispos.”

 Kyrie eleison

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Condição Patológica

Isabel, a Católica, a grande Rainha da Espanha, segundo um relato, encomendou certa vez uma pintura que mostrava um padre no altar, uma mulher dando à luz e um criminoso sendo enforcado. Em outras palavras, que cada um faça o que tem que fazer, e não outra coisa. Mas esses “Comentários” sugeriram semana passada que hoje as pessoas não estão sendo o que elas são: professores frequentemente não ensinam, médicos frequentemente não curam, policiais frequentemente não protegem, e – o pior de tudo, eu poderia ter acrescentado – padres frequentemente não estão sendo homens de Deus. Uma palavra moderna usada por um amigo italiano para descrever esse desajuste à realidade tão propagado hoje em dia é: “patológico”.  
 Agora, “patológico” é uma palavra pertencente a um jargão de psiquiatras que é propriamente conhecido como “psychobabble”, que se refere a palavras que se disfarçam de novinhas em folha, com muitas sílabas, mas que na verdade representam simplesmente as boas e velhas misérias da natureza humana decaída. Ora, os psiquiatras, eles mesmos irreligiosos, não podem resolver problemas de irreligiosidade, embora ao menos eles estejam, por assim dizer, tentando. Assim, a novidade do “psychobabble” serve pelo menos para sugerir que há algo sem precedentes nas misérias que têm se acumulado nos seres humanos desde os séculos passados até então, culminando na apostasia. Meu amigo escreve:-- 
 “A patologia pode significar uma doença ocasional ou congênita e, por extensão, um modo de ser anormal ou distorcido que, seja inato ou adquirido, se torna parte de uma constituição de um indivíduo. O mesmo conceito pode ser aplicado por extensão a um grupo de indivíduos ou uma sociedade. Desse modo, pode-se falar da patológica, ou seja, da doente, anormal, condição do mundo moderno. E independente de ser adquirida ou inata, não é vista como ela é pela pessoa ou pessoas relacionadas. Mais ainda, como elas a vêem como normal, a usam como um escudo, e mesmo se gabam dela. A anormalidade se torna normal e vice versa; esse é o drama do mundo moderno e do homem moderno.” 
Então nós devemos encontrar o padre negligenciando o altar, a mulher não dando à luz e os criminosos não sendo enforcados. Mas esse é exatamente o mundo em torno de nós – o “psychobabble” corresponde aos fatos! Assim, aqui está o que o mesmo amigo disse sobre como os católicos devem reagir à essa condição patológica do mundo moderno:
  “Os católicos precisam entender que nós estamos vivendo em uma situação sem precedentes em que todo o senso da realidade objetiva vem sendo continuamente perdido. Isso significa para a Igreja que os pontos de referência ainda válidos há 50 anos não mais se aplicam. Soluções diferentes são buscadas não só para que se tenha em conta a possibilidade de a desordem aumentar ainda mais, mas também para se permanecer elástico o suficiente a fim de se adaptar à situação que constantemente piora. Se então a doutrina é fundamental e decisiva, os católicos e os futuros sacerdotes devem ser ensinados doutrinariamente como esse fim dos tempos é único. Os Evangelhos falam-nos de sua vinda no futuro, mas eles estão conosco aqui e agora, e estão sujeitos a causar somente o pior, até o momento em que Deus disser que é suficiente.” 
Em resumo, séculos de apostasia crescente têm acumulado na raça humana uma recusa da realidade que pode ser chamada de “patológica”, e que está causando desconhecidos níveis de angústia nas pessoas, angústia não aliviada por um nível de prosperidade material igualmente sem precedentes. A Igreja Católica combateu essa apostasia, mas quando no Vaticano II ela desistiu do combate, a fantasia patológica tomou conta do mundo, e deu uma guinada em direção ao Anti-Cristo. O Arcebispo Lefebvre criou uma fortaleza de sanidade dentro da Igreja em ruínas, mas agora a mesma patologia está a caminho de tomar conta de sua Fraternidade.
 Professores, ensinem! Médicos, curem! Mulheres, dêem à luz! Padres, estudem tudo o que o Arcebispo disse e fez. E Rainha Isabel, por favor, rogai por nós. 

Kyrie eleison

Carta a um amigo hipercrítico

Desde a última vez em que conversamos estive me perguntando permanentemente quê atitude adotar frente aos comentários que me fez. Conheço teu temperamento e, além disso, tenho nesse aspecto um senso comum convosco. Meu modo de ser é também crítico e suspeito que desprender-se das más conseqüências que isto encerra é tarefa de toda uma vida.

Sei que a atitude crítica é sã, manifesta um espírito de inconformismo frente aos males e aos erros. Mas, aprendi também que existe um “demônio da crítica” cuja missão consiste em atormentar as mentes dos que vigiam a marcha dos assuntos humanos para levá-los ao desespero de dois modos, segundo me parece: desesperando de tudo e de todos, e logo desesperando de si mesmos.

A consciência de ter tido o privilégio da revelação, acesso aos Mistérios de Fé, fidelidade frente à apostasia geral, perseverança em resistir à pressão social que nos oprime a seguir à corrente, coragem para perseverar quando outros desertam e testemunhar frente aos que se negam à toda liberdade de espírito; a consciência destes méritos –que não são próprios senão misteriosamente doados por Deus- não deve nos fazer olvidar que somos falíveis.

É fácil reconhecê-lo. Somente um néscio o negaria. O difícil é crê-lo com uma convicção profunda, e agir em conseqüência frente aos dizeres e feitos próprios e alhures, sobretudo nestas matérias nas quais nos consideramos paladinos.

Para poder medir de um modo mais ou menos realista o alcance de nossa própria falibilidade é o terrível dano que causamos ao próximo por ação ou omissão na medida em que nos cremos falíveis – insisto, costume mais que uma convicção racional- deveríamos dirigir as próprias energias críticas contra nós mesmos, saudavelmente. Não se trata de castigar-se (algo que fazemos com freqüência) por não haver alcançado êxito. O tão aspirado “êxito” é um dos conceitos vácuos do homem moderno. Se trata de criticar nossas falhas com a caridade que nós devemos a nós mesmos, não menos que ao próximo, e insistir pacientemente em um caminho de perfeição cujo término deve ser a vontade de Deus.

Aqui fica descoberto nossa mais crua e penosa falibilidade: muitas vezes nem sequer somos capazes de saber com certeza qual é a vontade concreta de Deus a respeito de nosso próprio destino pessoal. Penosa e triste falha que, todavia, sabemos dissimular com outras apreensões pontificais sobre os destinos da Pátria, do mundo e da Igreja, dos quais, naturalmente, não temos a menor dúvida.

Eu te diria, parafraseando a um conhecido escritor: os hipercríticos são aqueles que vivem julgando os outros por suas ações e reivindicam serem julgados pelas coisas que eles planejam fazer algum dia.

Creio que um bom antídoto contra a hipercrítica é a ação. Quando a obstinação dos fatos nos faz sentir nossa própria impotência, começamos a reconhecer os méritos dos atos dos outros. Mas, há seus riscos: quando não encaminhamos devidamente a frustração, ficamos invejosos e ressentidos. Ou terminamos em apatia ou em um ceticismo mais ou menos latente, com vernizes intelectuais rigorosamente diletantes.

Nunca te ocorreu pensar que essa incapacidade para a ação fecunda (a que deixa atrás de nosso passo obras em pé e não ruínas) é uma conseqüência do temor de confrontar nossas ilusões (nas quais somos heróis, gênios, ou santos) com à realidade (na que seguramente somos infinitamente mais covardes que os heróis, mais torpes que os gênios e mais pecadores que os santos)?

Como alcançar nossa própria medida, conformarmo-nos a nosso próprio destino? Te sugiro algumas idéias que recolho por ali.

Não buscar o êxito, senão fazer a vontade de Deus, a que se expressa aqui e agora no cumprimento meticuloso dos deveres de estado, dos maiores aos mais insignificantes. Ser fiéis no pequeno.

Ser lento no falar, sobretudo do próximo e de suas obras e presto a ouvir. Sim, ouvi-lo cordialmente, com os ouvidos do coração. Colocar-se em seu lugar, tratar de entender –o que não significa tolerar nem aprovar necessariamente- seu ponto de vista; e fazer-lhe algum bem com nossas palavras. E sem isto não é possível, fazer-lhe um bem com nosso silêncio, ainda que mais não seja o de não obstiná-lo mais em seu erro. Quantas vezes sabemos que a palavra dita por nós em certos ambientes não fará nenhum bem e todavia a dizemos, porque não podemos resistir à ocasião de ser engodo ao outro, ainda que o estejamos empurrando ao precipício da ira e da cegueira. Se não podemos dar testemunho falando, demos calado.

Se trata-se de julgar, porque não usar um julgo generoso para que a mesma medida não seja logo aplicada a nós? Porque não salvar a intenção do próximo na medida do possível? Se é insuperável, guardar silencio, e se não podemos guardar silêncio, porque falar em nosso dever moral ou intelectual, fazê-lo sem cólera, sem esculpir-lhe na cara seus erros ou suas deficiências ou os erros e deficiências de suas obras.

Com quê direito nos sentimos alguém por nós mesmos, se não seriamos nada sem o auxílio de todos os que nos deram lições em suas obras ou em seus exemplos? Somos forçosamente herdeiros de muitos, qual será o legado que deixaremos, por sua vez, a nossos sucessores? O da coerência dos loucos? Não vamos reconhecer que somos humanos, que podemos contradizermo-nos e errar e que estes erros não são necessariamente desqualificadores?

Esta é a forma em que o hipercrítico se vai transformando no sectário: dados os meus princípios, tenho absoluta razão em tudo que digo. Assim, sem matizes, sem compreensão, sem piedade, sem humanidade.

É impossível conservar a pureza intelectual se não conservarmos a pureza de coração. Se nosso olho se transformou impuro já não poderá ver nada nitidamente, tudo estará distorcido por essa lente que agiganta os defeitos de fora e aos de dentro, os torna imperceptíveis.

Já sabemos que não há outro fogo purificador que o da Caridade. Não somos os detentores da verdade, senão apenas aspirantes, no melhor dos casos, a seus conhecimento. Não temos a verdade, senão que, por graça de Deus, apenas podemos estar na verdade. Não sejamos iconoclastas das opiniões nem das obras dos outros e seguramente receberemos a graça da fecundidade nas nossas próprias.

Afastemos de nós todo espírito de seita. Respiremos o ar fresco da dissidência cordial, afável, caritativa. São tão poucos (e tão importantes) os temas nos quais devemos necessariamente estar de acordo que cabem nas fórmulas do Credo. Nas demais não devemos muito auxílio porque toda apreciação, por ilustrada e prudente que seja, sempre resultará precária.

Na ordem do saber e da prudência das decisões; na ordem das conquistas e das realizações também se aplica esta sentença: quem cria ser mais do que é -isto é, nada- se perderá. Quem cria sensível e firmemente que nada pode por si mesmo, mas que pode tudo n’Aquele que nos sustenta, esse fará milagres.
 M .A. G.

sábado, 10 de agosto de 2013

Canonizações verdadeiras?


“O que o senhor acha da intenção do Papa Francisco” de “canonizar” João Paulo II e João XXIII na próxima primavera? Não é uma forma de “canonizar” o Vaticano II? E isso não levanta a questão da autoridade, uma vez que todos os manuais de teologia antes do Vaticano II ensinam que o Papa é infalível quando ele pronuncia uma canonização?” Essa foi a séria pergunta (ligeiramente modificada) feita a mim recentemente por um jornalista de Rivarol. Eu respondi o seguinte:
       A determinação manifestada pelos chefes da Igreja Conciliar para canonizar os Papas conciliares demonstra a firme vontade dos inimigos (ao menos objetivamente) de Deus para terminar com a religião católica e substituí-la pela nova religião da Nova Ordem Mundial. Assim, a uma Neo-Igreja correspondem neo-santos a serem fabricados por um processo de canonização que tenha sido desmontado e “renovado”. Como sempre acontece com o modernismo, as palavras permanecem as mesmas, mas seu conteúdo é bastante diferente. Portanto, os católicos que têm a verdadeira Fé não precisam se preocupar nem um pouquinho se essas neo-canonizações são infalíveis ou não. Elas são provenientes da Neo-Igreja, que é uma imitação da Igreja Católica. 
      Mas então, o que é essa imitação? Essa é uma pergunta delicada, pois facilmente se é acusado de ser um “sedevacantista”, uma palavra que hoje em dia assusta as pessoas quase tanto como a palavra “antissemita”. Mas o que nós precisamos é nos concentrar na realidade e “julgar conforme a justiça, e não de acordo com a aparência”, como diz o Senhor (Jo VII, 24). Não devemos nos deixar enganar pelas aparências, por emoções ou por palavras. Hoje, por exemplo, as escolas não se tornaram centros de desaprendizagem em vez de aprendizagem, os hospitais lugares de matar em vez de curar, a polícia instrumento de opressão em vez de proteção, e assim por diante? 
      Assim, pelo que a Irmã Lúcia chamou de processo de “desorientação diabólica”, os clérigos têm se tornado agentes da mentira em vez da verdade. Eles permitiram que suas mentes e corações fossem tomados pelas ideias e pelos ideais da Revolução, aquele levante radical e universal do homem moderno contra o seu Deus e Criador. No entanto, esses traidores objetivos (que ainda podem ter a intenção em seus corações de estarem servindo a Deus – Jo. XVI, 2) ainda são religiosos no sentido de que ninguém mais do que eles está “sentado na cadeira de Moisés”, nas palavras de Nosso Senhor (Mt . XXIII, 2). O Papa está sentado lá. 
      Em outras palavras, a Igreja de imitação em questão é a Igreja ocupada não por homens que não são religiosos, mas por clérigos cujos corações e cabeças estão mais ou menos ocupados por uma nova religião, que não é absolutamente Católica. Mas note o “mais ou menos”. Assim como a podridão não toma uma maçã de uma só vez, assim a igreja de imitação, ou a Neo-Igreja, pode estar no processo de eclipsar a Igreja Católica, mas dentro dela ainda há alguns bispos, muitos sacerdotes e uma série de leigos que podem guardar a Fé Católica até agora.
      Então, quando se trata das autoridades da Neo-Igreja, eu trataria a sua autoridade como se faz com um pai de família que ficou temporariamente louco. Não se presta mais atenção à sua loucura do que estar observando o momento em que essa chega ao fim. Mas nesse meio tempo não se deixará de amá-lo ou até mesmo de respeitar a autoridade intrínseca à sua paternidade. Então, que Deus me ajude.
Kyrie eleison.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Os apóstolos do Mr.Schwandt

Um casal de Michigan, nos Estados Unidos, levou para casa nesta semana seu 12º filho homem. Kateri e Jay Schwandt só souberam do sexo da criança durante o nascimento – e mesmo sendo novamente um menino, se disseram surpresos com a descoberta.
Os 12 irmãos Schwandt reunidos. Da parte inferior esquerda seguindo em sentido horário estão  Tyler, 21 anos, que segura Tucker, de 2 dias, Vinny, 10 anos, Drew, 16 anos, Zach, 17 anos, Charlie, 3 anos, Calvin, 8 anos, Brandon, 14 anos, Luke, 19 meses, Ga (Foto: The Grand Rapids Press, Chris Clark/AP)
Os 12 irmãos Schwandt reunidos. Da parte inferior esquerda seguindo em sentido horário estão Tyler, 21 anos, que segura Tucker, de 2 dias, Vinny, 10 anos, Drew, 16 anos, Zach, 17 anos, Charlie, 3 anos, Calvin, 8 anos, Brandon, 14 anos, Luke, 19 meses, Gabe, 6 anos, Wesley, 5 anos e Tommy, de 11 anos (Foto: The Grand Rapids Press, Chris Clark/AP)
“Nunca me imaginei com 12 filhos”, contou Kateri. “Nós não sabíamos qual era o sexo, nós nunca sabemos. É sempre um menino, mas é sempre uma surpresa”.Os 11 irmãos mais velhos de Tucker, como o caçula foi chamado, foram visitar a mãe no hospital.
Kateri e Jay Schwandt  seguram seu caçula, Tucker (Foto: The Grand Rapids Press, Chris Clark/AP)Kateri e Jay Schwandt seguram seu caçula, Tucker (Foto: The Grand Rapids Press, Chris Clark/AP)
O casal disse que desta vez achava que teria uma menina, mas a linhagem de homens permaneceu.
A tentativa de ter uma criança do sexo feminino, entretanto, não é o que motiva os dois a terem mais filhos – o casal é católico devoto e diz que a quantidade de filhos é uma preferência religiosa. Mas se forem abençoados com o 13º filho, esperam que desta vez seja uma menina.
Irmãos Schwandt ajudam a cuidar do caçula, Tucker (Foto: The Grand Rapids Press, Chris Clark/AP)
Irmãos Schwandt ajudam a cuidar do caçula, Tucker (Foto: The Grand Rapids Press, Chris Clark/AP)

 E o engraçado é que a notícia encontramos aqui: http://www.cbnfoz.com.br/ 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Roberto de Mattei e o "estilo" Francisco

Il Foglio, 1º de agosto de 2013
Sapatos vermelhos, maleta preta com barbeador e breviário, sem carro blindado. “Estamos agora reduzidos a avaliar um Papa a partir desses elementos, a partir de um discurso no avião, e não pelos atos de ensino” –  diz o historiador Roberto de Mattei, preocupado com o fato de que o Papa está se tornando um personagem de gravura, de talk-show. “Hoje tudo é superficial, gestos, e é neste campo que se vai procurar o sentido último das coisas, perdendo-se o conteúdo e a substância; discute-se a forma, que acaba sendo a mesma substância”, acrescenta. “Basta fazer uma comparação com a ênfase dada à Lumen Fidei, sua primeira encíclica: paradoxalmente, destaca-se mais o que é dito no avião do que o conteúdo desse texto. Ainda assim, entre os dois existe um abismo.”
De Mattei não se impressiona com a entrevista de Francisco com jornalistas a bordo do airbusque o trouxe a Roma após a semana agitada no Rio com jovens, pobres e mais fracos. Mais do que uma conferência de imprensa em vôo, “é preciso discutir os atos de governo do Papa, mesmo que eles ainda sejam poucos. Os Pontífices se exprimem com as encíclicas e os motu proprio. As palavras no avião saem no momento em que são encontradas, são opiniões improvisadas e pessoais, completamente desprovidas do caráter magisterial”. Naturalmente, o nosso interlocutor admite que “são interessantes para construir o personagem, mas permanecem aspectos marginais”.
Se tomarmos, por exemplo, as declarações sobre os gays, ou aquelas sobre Nossa Senhora,  definida pelo Papa como “mais importante do que os apóstolos, os bispos, os sacerdotes e os diáconos”, para De Mattei “são temas delicados e importantes que só podem ser construídos dentro de um discurso de ensino, e não reduzidos a um gracejo. Os gracejos podem ser significativos, mas não têm valor. “As frases improvisadas, por serem espontâneas, podem criar mal-entendidos superáveis se pronunciadas pelo homem comum, mas se tornam problemáticas quando saídas da boca do Vigário de Cristo. Lendo os comentários sobre o que foi dito por Bergoglio sobre os gays, incluindo o filósofo católico Giovanni Reale no Corriere della Sera nesta terça-feira, se parecia estar diante de uma mudança doutrinária. No entanto, tomando o texto integral das declarações de Francisco, percebia-se que ele baseou suas palavras na doutrina católica”. Trata-se de perceber onde está colocada a ênfase, que no jesuíta vindo de quase do fim do mundo é posta na mudança: “A mudança de estilo, uma revolução nos gestos e na fala”, que para De Mattei termina por “tornar-se mais profunda do que o plano doutrinário”.
A forma exprime um conteúdo, ou pelo menos deveria. O problema ocorre quando “os conteúdos são perdidos, retirados ou desviados. Nesse caso, discute-se uma forma tornada vazia. Prescindindo-se da dimensão sagrada do Papado – prossegue o historiador do Cristianismo – o sapato vermelho torna-se uma extravagância”. Um pouco de culpa em tudo isso têm também os meios de comunicação: “Eu me importo pouco se o Papa vai de Fiat 500 ou de Mercedes. Se eu me encontrasse diante de um São Pio X, talvez fosse melhor que ele usasse uma veste menos carregada”. A questão é outra, é “a redução da posição do Papa a puros gestos”, sem prestar muita atenção na substância. Mas Francisco – diz Roberto de Mattei –  “não é um tolo ou ingênuo. Pensa naquilo que faz e decidiu confiar sua mensagem mais nos gestos do que nas palavras e mais nas palavras do que nos atos pessoais do Magistério”. O medo, porém, é de que no plano midiático o Papa “esteja brincando com fogo, ao alimentar a idéia de ser capaz de dominar o mundo da comunicação. Tampouco isso é ingenuidade, mas talvez o bispo de Roma sobrestime sua habilidade política ao lidar com a realidade da comunicação”. E no mundo de hoje “há necessidade de espírito sobrenatural mais do que de cálculos políticos ou de meios de comunicação. Meu medo – continua o nosso interlocutor – é de que à força de se apresentar como um homem comum, ele realmente venha a sê-lo. Mas ele é o Vigário de Cristo, um fator que não pode deixar de ser realçado. Sapatos e sedia gestatoria tinham o mérito de expressar, possivelmente não de modo errado, esse valor de sacralidade devido ao Vigário de Cristo”, diz De Mattei.
Mas se o Papa “andasse de clergyman, como o Cardeal Bergoglio costumava fazer em Buenos Aires, que mensagem daria?”. O ponto fundamental, que não pode ser mal compreendido, é que o Papa “não é um homem como nós, e essa humanização do papado leva a esquecer seu fundamento divino e metafísico”.
Para o historiador do Cristianismo, a consequência desse processo de secularização é a eliminação das barreiras do ensino magisterial: “Quando as palavras do Papa se tornam como as de um homem comum, todas as críticas se tornam lícitas. Quando a verdade é reduzida a uma opinião, quando os conteúdos são perdidos, quando não se fala mais de valores não negociáveis​​, tudo se torna negociável, tudo se torna objeto de discussão.” Um caminho que “leva a Igreja a protestantizar-se. Este é o risco que eu vejo”, diz De Mattei.
Ainda sobre a questão da Igreja pobre, próxima dos mais fracos, missionária da periferia existencial, nosso interlocutor demonstra algumas perplexidades: “Fiquei muito impressionado que um Papa que se inspira em São Francisco de Assis por ver no frade de Assis um padrão de vida, que faz contínuas censuras ao mundanismo e gestos espirituais em favor da sobriedade, tenha endossado a decisão da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, presidida pelo cardeal brasileiro João Braz de Aviz, de atacar os Franciscanos da Imaculada.” Se há uma congregação religiosa que vive do espírito do Evangelho é justamente essa, diz De Mattei.
“São episódios desconcertantes ao se pensar que enquanto se fazem referências contínuas à simplicidade do Evangelho, a Cúria se mantém inalterada com suas estruturas. O machado cai sobre o pequeno, sobre os mais fracos, sobre os fiéis à tradição. Se Francisco quer inclinar-se para os mais fracos, não precisa ir muito longe, bastando as muitas comunidades de fiéis que permanecem teimosamente ligadas ao Magistério e à moral perene. Para aqueles maltratados ​​por seus bispos, pelos dicastérios da Cúria, isolados e demonizados. Procurar o mais distante esquecendo o mais próximo é uma falsa idéia de amor.” De Mattei precisa que não quer discutir o fato de o Pontífice se dirigir à periferia, aos mais distantes. Mais do que tudo, devemos sempre lembrar que “o caminho para chegar aos mais distantes passa pelos mais próximos, e não há atalhos possíveis. E os próximos hoje são os católicos ligados à tradição. Se há alguém precisando de misericórdia e ternura (palavras usadas por Francisco no Rio) são eles”.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

E Satã dirige o baile

[...] Mas, se apenas fôssem nossos instintos e nós próprios. Mas o demônio chega com todas as suas astúcias para avivar nossas paixões e nos atrair longe de Deus. Usa fartamente os diversos recursos da propaganda moderna. A civilização constitui, a seu serviço, variações apenas de um tema fundamental: "Gozar! Gozar!".

Liguem o rádio e escutem qualquer programa de canções. Certamente, não ouvirão convites diretos à impureza. Satã é bastante hábil para não apresentar em sua fealdade real as diversas formas da devassidão: fornicação, adultério, violação, amor livre. São palavras que por si só afugentariam qualquer pessoa honesta. A realidade ignóbil é, pois, envolvida por uma música sedutora e aparentemente inofensiva. Vozes ternas cantam "o amor, o grande amor, o doce amor", aquêle em que duas cobiças encontram o frenesi, dois corpos o gozo. Nunca a menor evocação do verdadeiro amor, o amor bendito por Deus, o amor que não é a posse voluptuosa da carne, mas a doação casta, serena e definitiva de dois seres participantes do Amor criador e redentor. Nunca dizem que a união de dois corpos só tem valor real, humano e divino, à medida que confirma a união dos corações e das almas num casamento legítimo. Os cantores voltam sempre, depois de devaneios, ao sempiterno leitmotiv:

"Quando estou nos braços teus,
Então, aos olhos meus
A vida é cor-de-rosa..."

Os ouvintes e as ouvintes que escutam essas canções freqüentemente, acabam por acreditar que sua vida será fracassada se não se entregarem totalmente aos prazeres carnais.

À superexcitação das paixões por essas lânguidas melodias juntam-se os estímulos, não menos pérfidos, que entram pela sensibilidade por meio de cartazes em que se expõem os nus. Há também os romances em que amantes extremamente simpáticos violam com êxito as leis de um decálogo apresentado como desumano.

Há as conversas em que se zomba dos que se submetem a preceitos considerados ultrapassados e ridículos pelos debochados.

Em suma, Satã está aqui, lá, em toda parte, espalhando pelas maneiras mais diversas o seu slogan favorito: "Gozar! Gozar!".

Se ainda Asmodeu, o demônio da carne, fôsse o único a andar pelo mundo! Mas não! Como diz o Evangelho, ele chama em seu auxílio mais sete demônios piores do que ele. Vejam, por exemplo, o demônio da embriaguez: como é sagaz!

Os anúncios dissimulam bem os efeitos nocivos dos licores inebriantes e nem sequer fazem a menor alusão ao mal-estar que, na maior parte das vezes, faz um verdadeiro inferno do "dia da ressaca". Segundo os anúncios a bebida tem todas as virtudes: estimula ou acalma segundo as necessidades, esquenta ou refresca, tonifica, dá ao organismo um delicioso bem-estar. Nunca se fala, nesta publicidade diabólica, dos crimes cometidos pela embriaguez.

Para evitar qualquer equívoco, afirmamos que nada há a censurar no uso moderado da bebida. Somente o abuso é condenável, mas é justamente esse abuso que favorece a publicidade ousada. Satã deve se regozijar com a excelente exploração de seu tema favorito: "Gozar! Gozar!".

A inimiga do demônio

No começo do mundo, logo após o pecado original, o Criador disse ao demônio, representado pela serpente: "Criarei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua e a sua posteridade. Ela pisará tua cabeça..." (Gn. III, 15).

Nesse momento precisou-se a missão que Deus reserva à Nossa Senhora. De fato, a Mãe de Jesus sempre lutou contra Satã. É, pois, natural que em nossa tão atribulada época Deus a tenha enviado à Fátima como embaixatriz, para esclarecer a humanidade enganada pelas mentiras de Satã. As aparições da Cova da Iria marcam o início de uma vigorosa contra-ofensiva.

Contra a propaganda satânica que prega o prazer e o pecado, Nossa Senhora opõe uma propaganda celeste a favor da penitência que leva à fidelidade a Deus. No dia 13 de outubro de 1917, ela declarava à Lúcia, Jacinta e a Francisco: "Vim para exortar os fiéis a mudarem de vida... e a fazerem penitência por seus pecados".

Convidando assim os fiéis à penitência, a Virgem Mãe nada anunciou de novo. Lembrou somente a um mundo ébrio de prazer, uma das leis fundamentais do Evangelho. Em muitos lugares, esquecia-se que, para ser católico, é preciso ser discípulo de Jesus, e de Jesus crucificado. Tentava-se conciliar o inconciliável, servir ao mesmo tempo a dois senhores. Jesus e Satã. Em Fátima, a Virgem veio repor em plena luz o ensinamento do Mestre infalível.

Pe. Marcel-Marie Desmarais, O. P.